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Monthly Archives: April 2012

A aventura “Berlim” começou num comboio, como todas as aventuras que se prezem deveriam começar.

Com muita pena, o ICE 370 não tinha nada de Expresso do Oriente, nem a perigosidade  – barra – excentricidade das linhas de comboio Indianas.

Era simplesmente um comboio cheio de gente que “trabalha em Frankfurt, e vive em Berlim, aos fins-de-semana”.

Muito menos eu me poderia comparar a algum “aventureiro” dos filmes de Cowboys, Indiana Jones ou coisa que o valha…era apenas mais uma vulgar “escapante” do escritório às 6h da tarde, a correr de saltos altos com um trolley demasiado pesado para quem ia só de fim de semana, um guia American Express altamente elaborado que não iria consultar, laptop a tiracolo em vez de carabina e muita, demasiada ansiedade em finalmente conhecer Berlim…

Percebi logo à chegada que não seria fácil enfrentar o “vilão” temperatura. Era simplesmente o primeiro fim de semana de inverno à séria (as temperaturas poderiam chegar aos 2º negativos). Grande pontaria.

A minha host esperava-me na Hauptbanhof de Berlim, e daí fomos directas à uma vernissage numa galeria de arte. Não havia melhor maneira para começar.

Depois de voltas e contravoltas no U-Bahn (o metro lá da zona), comecei a perceber que aquela tinha de facto a dimensão daquilo a que vulgarmente se chama uma grande metrópole! Um fim de semana aqui seria não mais do que um (angustiante, esperançoso?) começo da Odisseia (menos intrincada, esperemos, e de preferência sem durar 17 anos) que seria conhecer esta cidade.

De repente estava entre doze linhas de metro sempre abertas e sempre cheias de gente com look alternativo, obras aqui e além, algum caos ordenado e atmosfera algo charmosa / decadente, elementos que me faziam sentir no meio de um postal confuso vendido nas Tacheles.

Fomos parar ao Freies Museum, uma galeria que  mostra essencialmente arte contemporânea e que fica num imponente edifício de tijoleira, algures na Berliner west side.

A maior parte dos artistas, curadores, visitantes e amigos que tinham estado na exposição estavam já concentrados no pequeno bar contíguo a galeria, que não era mais do que um anexo mal amanhado e cheio, tanto de fumo como de personagens indescritíveis, vindas de todos os cantos do mundo….um músico espanhol a passar por uma crise de meia idade, um pintor com pinta de parisiense blasémente (ainda) vestido com um casaco cheio de tinta e cuidadosamente rasgado numa das mangas, um/uma (dúvida!) com ar de Mick Jagger/travesti/rock star em fim de linha, uma dançarina de flamenco revisitada, a simpatiquíssima jornalista/artista/comunicadora/guia turística com a melhor performance de Lisa Minelli em cima de um trolley (o meu) que já vi na vida…todos ali, pacientemente à espera de Richard Yates ou Pepetela, para escrever um romance baseado nos mistérios ocultos das suas vidas passadas (à parte: quantos esqueletos estarão no armário, quantas mulheres enganadas se suicidaram por eles, quantas aldeolas se chocaram com a sua queda artística e temperamento explosivo) e no fio condutor que os juntou ali, numa noite gélida do inverno Berlinense…

To be continued.

Mas o ex libris das nossas férias ainda estava por vir…decidimos acampar asselvajadamente (essa é a melhor maneira de acampar, eu garanto) na Fajã da Caldeira de Santo Cristo, que é, sem exageros, paradisíaca (eu sei que tendo para o melodrama, mas adjectivá-la de Paraíso não é exagero. Mesmo).

Classificada como reserva natural, a Caldeira de Santo Cristo pode ser vista como um misto de SPA, spot privilegiado para surf e bodyboard, com visitantes vindos de todo o Mundo, e ainda assim um verdadeiro retiro espiritual. Confuso? Vá ver para crer.

Chegar a Fajã da Caldeira de Santo Cristo para se ser brindado com aquela awwwwwwwe-inspiring landscape não é fácil, mas todo o trajecto vale muuuuito a pena. Não vale alugar transporte de moto – quatro (embora haja essa possibilidade), porque isso será uma grande batota (a não ser que seja no mínimo sexagenário, se estiver grávida de 9 meses ou tiver 20 kgs de mantimentos a transportar).

Assim foi: acordar às 5h da manhã para ver um nascer-do-sol espectacular, tomar um pequeno almoço revigorante num cafézinho de beira-de-estrada na Calheta (sempre com queijo da Ilha!), ir até à Serra do Topo e começar a descida, de botas, ténis, havaianas ou pé descalço e mochila às costas….que iria durar mais de 1h30…sempre rodeados de flores, sempre a ver o Mar, com direito a banho de cascata pelo caminho, para chegar lá abaixo e ver esta paisagem tanto linda!

Um luxo um pouco mais dorido, mas luxo ainda assim.

Já na Fajã de Santo Cristo, de tendas montadas, e com o apoio do Caldeira Surf Camp, passámos lânguidos 3 dias entre banhos de “lagoa”, passagens pelo café/restaurante do Borges, longas conversas sobre os mistérios da Caldeira, jantares vindos directamente do Mar, de mãos dadas a contar as incontáveis estrelas cadentes, a ouvir serenatas ao Luar…tão natural e imperceptivelmente felizes, tão cheias de tanto, tanto nada (mas daquele nada que tem melodia, ocupa espaço e faz sorrir)…num local onde, como diz a Margarida: “umas encontraram o Amor, outras a Amizade, outras ainda o seu “eu” interior”.

Saí dos Açores com 4 kgs de queijo da Ilha, um saco de roupa suja e completamente desgrenhada, mas com um sentimento de ligação à natureza nunca antes experienciado e um sorriso que até hoje, um inverno volvido, ainda está cravado no meu rosto quando falo desses dias…

Agora percebo o que dizias, Bárbara, quando falavas do sense of belonging que tem quem é dos Açores.

Eu digo, em jeito de tentativa forçada para parecer poética…

Quando ouvia dizer que cada homem é uma Ilha, um manto de tristeza me cobria a mente….

Nao quero ser uma Ilha…pensava eu, porque as ilhas vivem isoladas, rodeadas de um infinito Mar, qual amante fervoroso, mas carcereiro…
Preciso de gente que me rodeie, dos barulhos e cheiros familiares, da azáfama de abraços e beijos que antecedem um jantar, não quero nunca “ser” sozinha…pensava eu…

Mas agora finalmente percebi!… somos todos Ilhas…nunca isoladas, nunca sós…ligadas entre nós por veios de terra mais fortes que o tempo, abençoadas pelo inquebrável Mar…verdadeiros Arquipélagos… e não há nada mais lindo do que um Arquipélago…

…o Arquipélago dos Acores!

Traveller tips:

Por visitar faltou: Ponta dos Rosais e o seu Farol Abandonado,  Miradouro do Pico da Velha Parque natural Sete Fontes e Ribeira Seca, Fajã de Além, Fajã dos Vimes, Igreja de Santa Bárbara, Igreja de São Mateus, na Urzelina (Supostamente um vulcão levou parte da Igreja, mas deixou intacta uma vaca prometida ao Divino Espírito Santo. Curioso).

Fotografias de Diogo Bettencourt Pereira

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