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Monthly Archives: May 2012

Em Junho de 1967, teve lugar em São Francisco o que hoje é conhecido como o “Summer of Love”.

Caracterizou-se pelo Amor livre apregoado por pessoas livres (de preconceitos), alguns “desinibidores” naturais à mistura, a cultura hippie em estado puro com cadência rock n’roll (Janis Joplin, a “Experience” de Jimi Hendrix, entre muitos outros),  que rapidamente transformou os parques da cidade em recinto festivaleiro, com muito Peace n’ love, florzinhas no cabelo, vestimenta estampada e mão dada com o vizinho do lado…

Pois, esses hippies que chegaram nos anos 60, nunca mais se foram embora….eles ainda lá estão, em pleno Haight – Ashbury District…

São Francisco tem uma atmosfera espectacular e é uma cidade maravilhosa.

Adjectivos demasiado pobres para definir a cidade. Pobres em imaginação, em diversidade, em justeza. Decidi ir por isso ao dicionário tentar encontrar termos menos corriqueiros para o fazer. E cheguei a isto: é uma cidade chamejante, i.e., cintilante, resplandescente, flamejante; e excelsa, magnificente, inaudita, sublime…Ainda não chega.

O melhor será dizer: O verão do Amor ainda vive! Longa vida ao verão do Amor! [Porque essa frase define, sim, o espírito da cidade!]

E longa vida a Joplin e Hendrix (têm lá casa e terão para sempre 27 anos)……e a todos que representando a cidade, se imortalizaram. Pela música ou pela 7ª arte.

Porque São Francisco é uma cidade cinematográfica. Não falo de blockbusters Hollywoodescos  com efeitos especiais para dar e vender. Falo de Vertigo, Sweet November, d’A procura da felicidade e de Milk, de George Lucas em geral…

E o cinema (ao menos aqui) não mente.

Tudo o que é retratado nos filmes está ali, ainda a representar para os transeuntes permanentes ou temporários: as ruas incrivelmente inclinadas, os inúmeros murais espalhados pela cidade (esqueci-me por uns momentos de Frida Kahlo, porque afinal o Diego Rivera também tem voz), os enormes verdes parques, os funiculares primos direitos dos eléctricos Lisboetas e claro, a tão aclamada Golden Gate Bridge (parente abastada da Ponte 25 de Abril!)…

Mas apesar de tudo isso, o que ainda mais (me) impressiona é a simpatia e hospitalidade das pessoas, o ambiente leve, jovial, quase estudantil da cidade (Ave Berkeley!) , que contrasta em muito com o rítmo frenético de Nova Yorque ou um certo show off que se sente na Florida (tudo aspectos que fazem dos Estados Unidos aquela deliciosa salada Russa – ups! Grande gaffe diplomática!)

E não é necessário procurar por muito tempo o que os guias turísticos chamam de “mosaico cultural”.

A Chinatown é um exemplo de olhos em bico!

To be continued.

Flameje o texto com a Foxy Lady de Jimi Hendrix!

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Filipa, quem és e o que te levou a escolher Berlim para viver?

Sou uma miúda de 30 anos que estudou Publicidade e Marketing. mas também um bocadinho de literatura e outro bocadinho de artes e culturas comparadas, que gosta de viajar, curiosa e persistente na ideia de que devemos tentar fazer uma coisa de que gostamos. Por isso candidatei-me e tive a sorte de conseguir uma bolsa que me permitiu viver 6 meses em Berlim e estagiar num espaço artístico (Art Laboratory Berlin) onde participei na organização das exposições e tratei do fundraising para diversos projectos de todo o mundo.

Desta cidade, gosto do facto de ter uma vida cultural riquíssima e bastante acessível, um espírito internacional inacreditável, onde o multi-culti tem uma expressão muito evidente, também porque Berlim é muito jovem e permite ter qualidade de vida.

Por fim,  por ser uma cidade de tantos contrastes (antigo/moderno; campestre/citadina; divertida/séria; calma/caótica). Para mim, Berlim são muitas cidades numa só e tem-se muito a noção do peso histórico quando se vive aqui. Os berlinenses que vamos conhecendo viveram episódios históricos na primeira pessoa e têm sempre mais qualquer coisa a acrescentar ao que já sabemos. É interessante…

Qual é a relação da cidade com croissants? É que croissant rima com Paris (e aparentemente não com Berlim)…

Talvez seja uma relação de amizade, 🙂 ! Primeiro porque aqui se pronuncia ‘croissant’ como em França (o alemão tem algumas influências francesas). E também porque vendem as latas mágicas com massa de croissant já preparada e é só levar ao forno! Esta novidade tem vindo a reunir adeptos vindos de vários cantos do mundo.

 

Qual é o teu melhor conselho para quem vai visitar a cidade?

Estejam preparados fisicamente, isto é uma canseira!

Quase ninguém que vem a Berlim pela primeira vez tem a noção exacta do tamanho da cidade. É realmente muito grande e dispersa. Tem vários centros, não apenas um.

Recomendo que façam um tour guiado para depois escolherem os bairros de que mais gostaram e os explorarem com mais calma. Leiam sobre a cidade antes de vir e, sobretudo, estudem o mapa e programem bem a visita para não perder muito tempo em deslocações. Aqui há de tudo: arte, natureza, arquitectura, dança, e muito mais!

 Do que mais gostas em Berlim?

Gosto da vida pacata que podemos ter numa capital europeia que é super segura, e ao mesmo tempo uma variedade enorme de pessoas interessantes e programas de lazer low cost. Sem dúvida que Berlim oferece a vida de bairro (ir de bicicleta a todo o lado, mercados em cada esquina, feiras da ladra, a senhora da padaria que já sabe que levamos ‘o costume’, os vizinhos que já nos conhecem) e ao mesmo tempo festivais de tudo e mais alguma coisa, cinemas ao ar livre nos parques e concertos para todos os gostos.

E do que gostas menos?

Talvez por a cidade ser tão grande, acaba por ser difícil estar mais vezes com amigos que moram longe. E do Inverno…É mesmo frio e escuro.

Onde levarias um Lover?

À ponte de Oberbaumbrücke ao entardecer, que é muito bonita e tem uma óptima vista sobre o rio e a cidade.

E já, agora, qual o programa perfeito caso se vá de férias com os pais, sogros, tios e malta que tal?

A não perder, passeio de barco pelo rio Spree, ilha dos museus, cúpula do Reichstag, Tiergarten, East Side Gallery, Mauerpark ao Domingo. E ainda pequeno-almoço no topo da torre da televisão (Alexanderplatz), visita à Hamburger Bahnhof, concerto na Philharmonie.

 Berlim de inverno ou verão?

Primavera /Verão, definitivamente.

 Um tesouro de Berlim só desvendado aos bons?

Hmm… diria o Döner do Mustafah, em Meringdham! Um pitéu por 2,80€ (se não estou em erro), para levar e comer no parque Gleisdreieck, logo ao virar da esquina.

 E tu, que és uma miúda esperta, consegues responder a esta pergunta de interesse universal, que encontrei nas nossas deambulações por Berlim? 

A monster, for sure!

Obrigada, Filipa!

Roma estava a exercer sobre mim um fascínio inexplicável por palavras e isso reflectiu-se no torcicolo que quase apanhei. Era impossível escolher entre olhar para a frente, esquerda ou direita, cima ou baixo (há surpresas por todo o lado!)

É um bombardeio artístico permanente!

Caravaggios em Igrejas anónimas, que se multiplicam como cogumelos pela cidade toda. Autênticas obras de arte, museus que usam a religião (quase) como pretexto para fazer uma homenagem à beleza artística…

Se Berlim e Londres são lares perfeitos para a Arte Contemporânea, Roma é a casa da Arte Antiga e do Renascimento. Para usar um lugar-comum (é mesmo para isso que eles servem), Roma é um verdadeiro museu a céu aberto.

Encantei-me com o Coliseu e com o Fori, odiei a “Machine a taper” do Mussolini, passei pela Villa Borghese, admirei a sobreposição de épocas e estilos, deleitei-me com o gelado de nocciola do Giolitti

Pedi um desejo e quis banhar-me na Fontana di Trevi, qual Sylvia em La Dolce Vita

Fui uma das milhares de miúdas embevecidas com a Via del Corso e literalmente babei na loja da Patrizia Pepe.

Chianti no Le Coppelle. Jantar, outra vez, na zona da Piazza Navona, no restaurante Maccheroni. Um manjar dos Deuses.  Gosto de ver que os Italianos são uma buona forchetta.

Caffe della Pace. O sítio do costume. Já me sinto uma habitué.

Seguimos para o Clube “La Maison”. Um misto de clube de High Street Kensington com Twins em noite de iLove. Ambiente giro, garrafas de champagne com fogo de artifício (típico!), uma boneca insuflável (pasme-se!), música comercial bastante dançável.

Domingo tínhamos que nos ir embora.

Não queríamos. Mas tinha mesmo de ser. Dia de sol inacreditável. Fiz questão de conhecer Trastevere. E que bela surpresa foi. Se tivesse que lhe dar um título, seria “Il quartiere italiano vero” (perdoem-me o italiano macarrónico).

Calçada (meio) à Portuguesa, roupa estendida à janela, Trattorias e Pizzarias com esplanada por todo o lado, uma Igreja com um interior inacreditável, quase quase a Alfama lá do sítio (não consigo evitar as comparações!).

Talvez onde eu quisesse viver se me mudasse para Roma.

Almocei uma deliciosa Pizza Campana, numa esplanada, a gozar o calor.

A minha amiga Emmanuelle, tão tipicamente francesa, apreciava o meu apetite com algum gozo e (certamente) incredulidade. Ela que tinha à frente um prato de legumes grelhados…

Custou-me muito sair de Roma. Saí assim, com o coração apertado.

Dou voltas e voltas à cabeça a tentar perceber que pretexto válido consigo encontrar para passar pelo menos um mês naquela cidade….é que Roma já faz parte do grupinho de cidades que eu quero que façam parte da minha vida…aquelas que quero repetidamente “viver”, pelo tempo que for, sempre que possível, mas em que nunca poderia de facto morar….por medo de me tornar impermeável à tanta beleza ou de o meu coração simplesmente parar por não conseguir lidar com ela.

De regresso a Frankfurt (onde eu morava na altura), num almoço corriqueiro ao pé do escritório, no Brot und Butter, meio a medo pedi um Rigatoni von venigni mit babyspinat (o que não é mais do que uma tentativa frustrada de embrutecimento do italiano).

Estava cinzento e frio, a magnificente Alte Oper não me parecia já tão bonita e o penne tinha sido cozido um minuto a mais.

Suspiro.*

Tempere este texto com La Dolce Vita (finale), a gosto…

Decidimos ir para a zona da belíssima Piazza Navona.

Que me fez imediatamente pensar em bairro alto revisitado, com um toque de classe Romano. Se calhar não é bem isso.

Zona de bares, restaurantes, pessoas bonitas, com imeeeensa pinta (o casaco que dá com a bota que vai com a mala, que não dispensa o cabelinho arranjado) e super bem dispostas.

Talvez uma Paris mais desordenada e com um salero mais latino. Não, também não. Copo de vinho Italiano. Não anotei o nome. Estava demasiado embriagada pela atmosfera para pensar nisso.

Não adianta tentar arranjar comparações. Roma é Roma.

Fomos jantar. Tive logo um bom feeling. O Da Francesco não parecia nada de especial, mas havia lista de espera para entrar.

[Dica de ouro: quanto pior aspecto tiver a trattoria em Itália, mais pérolas saem da cozinha. Não falha. Conselho de Italiana!]

Vozes altas, risos suspensos no ar impregnado de comida que acaricia o olfacto, o palato, os sentidos, a alma…empregados deliciosamente impertinentes que quase se sentam à mesa e dão palpites sobre o que deve comer quem acabou de chegar à cidade.

Decidi que iria entregar-me sem limitações aos prazeres de Roma. Aos prazeres à mesa. Tal como todos os Italianos o fazem.

A hora de comer é sagrada. Foccacia com presunto, scallopini de vitela, Tiramisu. Tudo regado com bom vinho da terra, como manda a tradição.

Seguimos para o Caffe della Pace , que pelo que percebi é o Maria Caxuxa lá do sítio.

Um gelo cá fora. Novembro fartou-se de brincar aos Agostos e decidiu finalmente munir-se das suas vestes Outonais.

Tive de repente saudades de Roma no verão, de estar cá fora na esplanada de copo de vinho na mão, de vestido flutuante e sandálias rasas, pezinhos quase no chão.

Só depois me lembrei que nunca tinha lá estado antes….será possível ter saudades do que “ainda” não se viveu? E, já agora, de ter saudades por memórias que não nos pertencem? Eu tive…

Ficámos hospedadas no belíssimo e nobre Bairro Parioli. Conversas intermináveis de madrugada, sobre exactamente os mesmos temas. Exaustão feliz!

No dia seguinte, Sábado, almoçamos no Restaurante Vecchia Roma, mesmo no centro da cidade. Outro que tal, com o seu ar turístico – bimbo, e depois afinal com os melhores spaghetti alla matriciana e alla putanesca que já provei na vida.

Cozinhados directamente na “bola” de queijo. Cozedura perfeita, nem 1 segundo a mais, queijo divinal, bacon à medida. O prato vinha bem servido, mas eu não me amedrontei.

A busca da bel far niente e prazeres adjacentes sobrepunha-se à ameaça da praia daí a um mês.

Piazza Santa Maria dei Monti. Uma pracinha muito simpática, com um café delicioso, onde as infusões e Capuccinos são servidos com biscottis acabadinhos de sair do forno.

Soube ainda melhor porque foi o lugar escolhido para o reencontro com amigos não vistos desde o verão…

Já era quase noite e (só agora!) os passeios turísticos iam começar. Não se pode ter tudo. Passámos por uma loja vintage, a Pifebo, onde se pode encontrar pochettes Valentino por €25, e muito, muito mais. Claro que tivemos a reacção histérica que as raparigas tão bem percebem (e que os rapazes hão-de achar ridícula).

To be continued!

Sexta-feira. Fim de semana seguinte ao de Berlim. Corrida para o aeroporto. Mais do mesmo.

Mas Roma vale qualquer esforço!

O salto alto sempre a atrapalhar (eu não aprendo), trolley recheado q.b. de kits potentes (porque fazer feio em Roma vai contra as leis do Vaticano. O próprio Papa usa sapatos Prada!!!), máquina fotográfica com a bateria cheia, um sorriso literalmente tatuado na cara, da testa até ao queixo, pela percepção de que os elementos necessários para um fim-de-semana de sonho estavam todos ali.

O timing e a oportunidade eram perfeitos! Era o primeiro fim-de-semana da minha vida em Roma, havia muitas saudades a matar no que seria o primeiro  reencontro de três amici del cuore durante a jornada de L.L.M. que ultrapassamos juntas (uma delas Italiana, que nos ia mostrar a sua Roma) e last, but not least, esta era já a Roma do (Super) Mario Monti (toma lá, Berlusconi)!!!

O plano: inexistente, como convém nessas situações!

Cada uma deu o seu bitaite. Trinta emails depois, conseguimos concordar em: comer muuuuito e bem, ir às compras, vaguear sem destino, sair à noite. Tudo organizado, portanto. Estávamos satisfeitas.

Voo da Lufthansa. Arroz doce com chocolate e um copo de água. Eu aguento isto!

Porque na vida não há coincidências (ou há? Vou mudando a minha teoria sobre esse assunto a meu bel prazer) estou a ler o Eat, Pray, Love, da Elizabeth Gilbert, exactamente na parte em que a narradora descreve a sua experiência em Roma.

Depois desta confissão, para algumas pessoas eu nunca mais me levanto do chão. Eu sei que este é o típico livro tão carinhosamente apelidado pelos anglo saxónicos de “chick lit” (i.e., livro para “gajas”, escrito por “gajas”), sobre a trintona que depois de várias tormentas lá encontra o seu Cabo da Boa Esperança….mas a verdade é que, preconceitos e historietas à parte, a descrição de Roma feita no livro é D-E-L-I-C-I-O-S-A. Assim mesmo, letra por letra.

[Nota Benne: Ok, eu juro que nem sequer acabei de o ler, e que também leio coisas melhor aceites pela sociedade…volumes pesadões de autores com nomes esquisitos, daqueles que fazem ir para a cama com uma dor de cabeça letal, e com um tão genuíno quão temporário sentimento de inteligência (que se desvanece logo na manhã seguinte).]

Ainda no avião, e já sou toda eu fantasia, o livro a incentivar-me, a imaginar-me, qual Júlia Roberts, a vaguear pelas Ruas de Roma, a tomar um caffè macchiato numa esplanada ao pé de uma fonte qualquer, a ler poemas em Italiano…mas se calhar o melhor é voltar à realidade. Vamos aterrar!

Finalmente em Roma, já estou encantada com o italiano (a língua!) que vou ouvindo e lendo nos anúncios do aeroporto. L’eleganza é un diritto! (concordo. Eu quero a minha, se faz favor)… Il caffè è il balsamo del cuore e dello spirito (se o café faz isso, imaginem o que outras coisas farão ao espírito)… logo a Irina Shayk em pose sensual a publicitar a Intimissimi Uomo. Mesmo ao lado, um anúncio a Biere du Demon (uma associação interessante)….

Que língua tão bela! Tão melódica. Faz qualquer pessoa parecer mais sensual (o que pode tornar-se um tanto perigoso). Até comprar um bilhete de comboio tem magia. E o facto de se falar só na Itália (bem como em algumas colónias Italianas, tal como Mykonos ou Formentera), torna-a ainda mais especial.

Leonardo da Vinci express. Roma Termini. A minha Marta Italiana. Abraços na estação. Saudade em estado puro, que não se dissolve nem com abraços apertados. Muita conversa a pôr em dia: final de namoro. Continuação de namoro. Início de namoro.

Temas diversos, com imenso conteúdo e de carácter Universal, portanto.

To be continued.

Eu não sou mal educada.

O meu pai sugeriu-me que escrevesse um texto pelo dia da Mãe, com este título (em homenagem à primeira frase do último livro do Pepetela “A Sul, o Sombreiro”), e como filha obediente que sou, cá está ele.

Sou, isso sim, uma grande Filha da Mãe.

Passo a explicar.

Grande, porque já sou bastante crescidinha.

Filha da Mãe, porque (i) há sinais inequívocos (físicos e alguns laivos de personalidade) de que ela é mesmo minha, e (ii) porque independentemente da idade, ela será sempre a minha mamã.

(Ela faz questão de me recordar diariamente que teve de passar 9 meses comigo na barriga, por isso ai de mim que reclame de alguma coisa. Digamos que, se hei-de passar toda a minha vida a pagar essa dívida, isso só pode ter-se tratado de um negócio usurário).

Devo acrescentar que eu e os outros filhos da Mãe (i.e., os meus irmãos), com idades bastante diferentes, em público ou em privado, enchemos garbosamente a boca para a chamar, alto e bom som, de MAMÃ!

Isto já me valeu olhares de escárnio, outros de intolerância, muitas vezes de gozo ternurento q.b…..parece-me que em casa dessa gente, a partir dos 5 anos, já só é cool chamar Mãe.

Humpf! Eu não dou troco e sigo em frente.

Este nome redondo, MAMÃ, queridinho por natureza, é usado em qualquer situação, seja ela muito ou nada carinhosa. É simplesmente o nome dela, está colado à personagem e dele ela nunca mais se livra. Para bem dos nossos pecados!

É que eu gosto muito do progresso, da evolução, das mudanças….mas preciso do porto seguro que é a certeza de que há coisas que nunca mudam….que ela há-de sempre irromper pelo meu quarto adentro sem bater a porta (“Não gosto de portas fechadas!”), que controle se abri a porta estratégica do armário que impede olhares indiscretos de fora para dentro, que me obrigue a tomar a sopa, porque é de legumes e coisa e tal (mesmo que eu esteja convencida de que não a quero)… que não importa a idade, seremos sempre mãe e filha, embora o Tempo atribua contornos de amizade a essa relação parental….

A minha mãe é uma figura incontornável na minha vida.

Devo a ela grande parte do que sou (digamos que ela não fez grande trabalho, mas olha, é o que há)….pelo menos 5% do que me foi ensinado ao longo da vida ficou retido na minha mente, e acreditem que tendo em conta as circunstâncias o saldo é beeemmmm positivo.

Ela deu-me noções de moda e estética (“é MESMO isso o  que vais vestir?”, “não tinhas uma saia mais curta?”, “queres mesmo que eu te diga o que pareces?”), de arte (“não gosto de arte para malucos, deixa de inventar e vamos ao Louvre”), de lógica (“isto é assim porque eu quero e quem dita as regras sou eu”)…

…e também de incentivo, de auto-confiança, amor próprio, solidariedade e um imenso humanismo, que só me resta desejar ter aprendido bem a lição (“decide o que achares melhor, que eu assino em baixo”, “não há nada que não consigas fazer”, “tenho orgulho em ti”)…

Nunca pensei dizer isto, mamã, mas obrigada por me teres dito alguns “nãos” durante a minha adolescência (excepto para aquela festa de Carnaval aos 15 anos), por me teres ensinado que o jantar  é à mesa e em família (e nada de telemóveis! quando eu estava mesmo à espera “daquela” chamada), que não há nada mais importante que a Família (há um bando de gente para respeitar e amar, o que pode ser um pouco cansativo, mas é o que temos) e pelo exemplo do que é uma Super Mulher e Profissional de alta estirpe, séria mas com gargalhadas cheias de “estilhaços de vida.”*

Nesta foto, devias ter mais ou menos a minha idade.

Foi a eleita, não por não seres linda ainda hoje, mas porque achei engraçado imaginar como serias com a minha idade, se teríamos coisas em comum…queria pôr-me um bocadinho na tua pele e perceber o que se sente sendo Tu….

(pensando bem, eu devia ter sido actriz, já que gosto de me pôr em peles alheias…. melhor, artista de circo,  tendo em conta as barbaridades que digo por metro quadrado, mas a isso já estás habituada)…

Levo no dedo o anel que usaste durante mais de 20 anos. No dedo médio, para não cair. Serve como amuleto, como protecção. Por mais 20 anos, até o passar a Filha que ainda não tenho.

Porque serei, para todo o sempre, uma Filha da Mãe.

*Expressão roubada ao brilhante Diogo Amarante

Eis, quando, já no último dia, fui descobrir a Berlim Imperial. Fiquei meio confusa, franzi o sobrolho, pisquei os olhos e procurei ajuda. A cidade metamorfoseia-se… agora é magnânima, espaçosa, com violinos (ou copinhos com água) a tocar no meio da rua e com uma Museum Insel que a minha mãe aprovaria, em detrimento da “arte para malucos” (parafraseando-a imaginariamente caso ela tivesse pisado o chão das Tacheles) das galerias que eu tanto admirei.

Mais boquiaberta fui ficando ao ver o chique da Unter den Linden (a Champs Elysées lá do sítio, explicaram-me) a Friedrischstrasse e a Neue Synagogue, e muitos outros monumentos e avenidas que vale a pena descobrir enquanto em Berlim.

Berlim é terra de todos e pertence a ninguém! Ich bin ein Berliner não está reservado só a alguns e está longe de retratar a proveniência de quem o diz:  é expressão livre, aberta a quem lá vive, mais a estatuição de um modo de vida do que a indicação de um local de nascimento.

Há um certo comunismo quase hippie, com achegas de internacionalidade cosmopolita que não deixa ninguém indiferente…é o mesmo que dizer que dançar ao som de cumbiacion, num bar fervilhante de latinos em terras gélidas alemãs ao lado de uma portuguesa, tem qualquer coisa que se lhe diga.

Esta viagem serviu principalmente para despertar a curiosidade sobre Berlim. Muito ficou por viver. Reza a lenda que são necessários pelo menos dez dias para se ter “noção” da cidade e sentir que a começamos a conhecer.

Só me resta aguardar a oportunidade para  conhecer o lado capitalista (e já agora, o incontornável lado borguista) da cidade…

Traveller tips: Atenção ao clima. O inverno na Alemanha é muito rigoroso, e é impeditivo para fazer certos must do na cidade, como por exemplo percorrê-la de bicicleta.

Um tour low cost para conhecer Berlim de forma wow! http://wowberlin.blogspot.de/

Para entrar no mood: 

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