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Monthly Archives: December 2012

Alexe-b'day

Como resumir a última década de uma vida, em algumas linhas?

Questiono [a mim própria, aos outros, a quem saberá mais do que eu]: será possível circunscrever  “os 20 anos” de alguém num pensamento, numa tirada genial que expresse tudo o que foi vivido?

Não consigo fazê-lo. Ninguém respondeu à pergunta. E isso talvez seja um bom sinal.

No dia 30 de Novembro fiz 30 anos de idade. Casei os anos, num ano cheio de mudanças. Fui nómada, uma vez mais, a minha mente à procura de poiso, o coração atrás dela, meio confuso, carregava as malas…hoje tenho uma base, mas há roupas ainda penduradas em sítios que não só o de agora. Deixo sempre, algures por onde passo, um bocadinho de mim. Choveu muito nesse dia. Terá sido um aniversário abençoado?

Passei muito tempo a pensar no significado desses 30 (Primaveras ou Outonos? as estações todas, prefiro)…

Melhor, a pensar se teriam significado, de todo. Passei por estados [claramente bipolares] de ansiedade, euforia, nostalgia, alegria e tudo isso outra vez, numa espiral que só me lembra o Vertigo. Pesadelo Hitchcockiano, portanto.

[O pesadelo acabou a partir do momento em que o vestido escolhido para a festa de anos chegou finalmente às minhas mãos. Estou cada vez mais crente que a futilidade, bem doseada, um dia poderá salvar o mundo da insanidade mental]

Tiveram importância, acima de tudo, as ponderações feitas, o atirar das variáveis para cima da balança [não para a balança da Justiça, que essa por algum motivo tem os olhos tapados], o pensar novos caminhos e novas vontades, malabarismos psicológicos que ainda não consigo perceber se me transportaram para um estádio diferente da minha evolução pessoal. Não importa. Agarro-me à beleza da jornada, vamos ter que esperar pelo final.

Cumpriu-se o presságio, sinto-o agora, de quem teve a amabilidade de me dizer: tudo muda, nada muda.

Sou apenas um pouco mais de mim.

Tentei fazer um apanhado do que poderei ter aprendido em 30 anos de existência, mas as minhas listas serão para sempre inacabadas (já vivo bem com isso!), e tenho receio de que alguns dos meus eus se sintam ofendidos pela exclusão involuntária.

Ainda assim, muito de repente, sem sentido e de rajada, percebi que:

– Gosto dos lugares comuns, frases feitas e ditados que servem para tudo e para nada [os últimos fazem-me sempre sorrir; os primeiros, desprezo-os, por vezes – pela facilidade – ou então idolatro-os – se forem utilizados por quem tenha a criatividade de fazer de situações do quotidiano sketches humorísticos];

– O tempo não é (mesmo) elástico [essa constatação foi das mais difíceis], e check lists impossíveis são [mesmo] impossíveis de concretizar;

– Andar de mãos dadas é muito bom; ver estrelas cadentes de mãos dadas, deitada na relva, a ouvir o mar, é ainda melhor;

– A música ocupa espaço e pode ser uma forma de religião;

– Não são os lugares que deixam marcas em nós, mas as pessoas com quem partilhamos esses lugares. Só por isso é que os momentos mais vulgares podem deixar marcas indeléveis, verdadeiras tatuagens no coração;

– Viver permanentemente com saudade é uma estranha, mas viciante, forma de vida;

– Em algum momento na vida, vamos perceber que precisamos da Natureza presente de forma mais intensa;

– Banhos de mar e de sol lavam o corpo e a alma;

– O final da tarde é o meu momento preferido do dia, porque ainda se vive o que foi e há já a promessa do que virá;

– Não há nada mais imprescindível na vida que a amizade e o amor (o ar para respirar vem em terceiro lugar), e ambos precisam de ser acarinhados por igual;

– Quando temos um recém – nascido ao colo (ainda que “não directamente nosso”), passamos a querê-lo mais do que a qualquer outra pessoa no mundo [e nesse exacto momento “aprendi” o milagre que é ser Tia (Prémio Grande Revelação!)];

– O momento para ser feliz é hoje, não foi ontem nem amanhã [ditou esta sentença um dentista brasileiro com o tom e seriedade de um pastor da IURD – talvez a constatação mais obviamente deliciosa!]…

[Eu poderia continuar, mas quem lê iria  continuar a não aprender nada de novo…]

O porquê de escrever isto agora, 30 dias depois?

Porque a entrada numa nova década assemelha-se, se quisermos, à entrada num Novo Ano…esta ocorre com mais frequência, é verdade, mas pode (na minha opinião, deve!) ser [também] usada como a oportunidade de um recomeço, a cada 365 dias.

E, já agora, porque em ambas as ocasiões podemos sempre dizer aquela que, de todas, é a minha frase preferida: “Abram o champagne”.

O champagne abriu-se. Uma nova década começou.

E um novo ano vai também começar. Que ele seja, mais do que próspero, extremamente feliz.

Feliz 2013!


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O que fazer?

Arriscar? Não arriscar?

A praia da Equimina até nos parecia bastante agradável, mas o “desconhecido” parece ser sempre mais apelativo…e havia um je ne sais quoi de misterioso a rondar a “Baía dos Elefantes”…

…A começar pelo nome! Porquê “Baía dos Elefantes”? já lá houve mesmo elefantes? mamutes pré-históricos? muitas teorias demagógicas foram apresentadas pelo grupo, uma mais estapafúrdia do que a outra. Ficou por descobrir. Quem souber, que me envie um email!

…E como lá chegar? só mesmo por barco? ah, afinal há um caminho de terra batida? por onde? quanto tempo? quantas curvas a contar daquela árvore? (não, não há placas nem GPS que nos valha. Aliás, tentar usar o GPS é batota. És um descobridor, comporta-te como tal!).

O Alain: vou negociar com os pescadores uma boleia! Foi. Com andar decidido. Ficámos à espera, expectantes!

AlainNão tivemos sorte! estavam ocupados com coisas mais importantes como…pescar!

A Renata decidiu “testar” a água, com ar contemplativo…sabia que por aí vinha o desconhecido, e não fosse o diabo tecê-las, mais valia dar agora um mergulhinho…

Diogo

O Diogo, de máquina em riste, pronta a disparar, impaciente, a ponderar se a objectiva seria suficiente para ir além da linha do horizonte…

Fomos de Jeep. E tivemos de perguntar, na Aldeia mais próxima, qual o caminho. Muitas dúvidas…apenas um dos aldeãos falava português (ou corruptelas do português?) e a comunicação, por isso, não foi nada fácil…[lembrei-me, de repente…”acrescentar à check list para a vida: aprender um dialecto”]…pela esquerda ou pela direita? quanto tempo? teorias divergentes, ainda mais dúvidas, caminhos que nos pareciam iguais, montes feitos de terra, o carro quase a ficar enterrado, mas a vontade de lá chegar era superior ao receio de nos perdermos no meio do nada [tínhamos a segurança de um farnel de bolachas, queijo e vinho branco, devia dar para sobreviver durante uma semana]…

[se isto fosse um filme, eu seria o único sobrevivente, diz o Alain…]

E de facto, valeu a pena! E sobrevivemos todos!

As tais águas azul-esverdeadas, prometidas, lá estavam, a praia quase deserta (pergunto-me: quantas praias assim haverá ao longo da costa Ocidental Angolana, esperando pacientemente para serem descobertas?), montanhas que a mim lembraram manadas de elefantes, até uma chuva morninha que, apesar de deliciosa, veio acompanhada de trovões assustadores e enlameou o nosso caminho de regresso…

A cereja no topo do bolo, melhor, a “Cuca no topo do prego”, no bar Ferro Velho, em Benguela, bem acompanhados por um pôr do Sol vermelho-laranja e aves no Céu, fecharam a tarde.

E a noite já estava planeada.

Jantar no Aparthotel Mil Cidades, com uma cozinha com travo Indiano e decoração (belíssima!) Africana contemporânea. Daí seguimos para a lendária discoteca “Chirinaua” (é assim que se escreve?)…e o Chirinaua não desiludiu, porque era exactamente o que eu estava à espera.

Uma discoteca africana “à moda antiga”…pista de dança ao centro, eles e elas altamente kitados…a saia que dá com a sandália, que joga com o baton, que não descura o decote…kizombadas à séria, o jogo do “a menina dança?”, sorrisos à toda a volta, o cansaço a puxar de um lado, a vontade de dançar do outro…

Ombaka kuia!

E no último dia só apetecia não ir embora…os mergulhos na praia do Terminus não aplacaram a tristeza da despedida, mas a comida D-E-L-I-C-I-O-S-A do Restaurante D. Bina, no Lobito, ajudou imenso.

Caso para cantar…

Quando eu fui a benguela eu não quis regressar

Ao ver praia morena

Fiquei a sonhar

Que bela mulata

Princesa do mar

Deitada ao sol

Risonha a queimar…

Fotografias de Diogo Bettencourt Pereira e Alexe Gonçalves

 
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