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Monthly Archives: February 2014

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“Se fosse uma ave, Luanda seria uma imensa arara, bêbada de abismo e de azul. Se fosse uma catástrofe, seria um terramoto: energia insubmissa, estremecendo em uníssono as profundas fundações do mundo. Se fosse uma mulher, seria uma meretriz mulata, de coxas exuberantes, peito farto, já um pouco cansada, dançando nua em pleno carnaval”.

José Eduardo Agualusa, in Louvação do Caos.

Luanda. Ou Lua, como é conhecida na intimidade. Também Loanda. Literariamente: Luuanda (veja-se Luandino Vieira). De seu nome completo, São Paulo da Assunção de Luanda, foi fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais.**

Faço hoje dois anos de Luanda.

O escritor José Eduardo Agualusa refere-se ainda a minha / nossa Luanda como “…uma esplêndida confusão de raças, línguas, sotaques, apitos, buzinas e atabaques, que, com o passar dos séculos, mais não fez do que aprimorar-se. O caos engendrando um caos maior”.

Não a consigo definir com mais brilhantismo. Penduro-me, por isso,  na pena de quem sabe escrever melhor.

Continuo a tentar, não obstante, colocar uma ordem nos meus sentimentos, pensamentos confusos. Se eu fosse o Mia Couto, talvez lhes chamasse “pensações”.

E o que é Luanda para mim?

Também uma mulher. Tem de ser uma mulher. Não uma mulher composta, sóbria, racional. É apaixonada, arrebatada, um tanto desequilibrada, tão quente e tão vibrante, que não podemos, não queremos deixar. Porque sem ela, a vida tem menos sabor, menos risco, menos audácia, menos luz. Fica tudo mais cinzento.

Ame-se ou odeie-se, por ela não é possível ter um sentimento morno, indiferente. Se assim for, já não se vive, existe-se apenas em estado meio comatoso.  Porque ela chega, de lábios pintados de encarnado, enfeitiça-nos, canta o seu canto de sereia (o tal canto da Kianda) agarra-nos sem percebermos, e quando menos esperamos, deita por terra quaisquer convenções e pré-conceitos antes existentes…

E o que mais dizer de uma cidade (e de um país!) onde as coisas não são simplesmente boas – kuiam!; uma festa não está simplesmente agradável – está a bater!; e se algo está bem feito: dá karga!

É preciso ter em mente: Luanda é um País, Angola é outro.

Angola é linda, é natureza viva, é uma extensão de terra, mar, céu e gentes de sorriso franco.

Luanda é caótica, estaleiro de obras, mais um estado de espírito do que uma cidade. É-se Luandense porque se respira os seus (des)encantos, porque se adopta esse estado…quase civil, quase da alma.

[Tal como se é Londrino, Nova Iorquino ou Lisboeta. Porque não há outra opção. A cidade contagia, tem ritmo próprio, altera-nos e toma conta de nós].

Tive uma ideia imbatível. Vou mandar catalogar como património da humanidade a gargalhada dos angolanos, os almoços de Sábado, os festejos com os amigos à beira – mar em noites de sempre-verão, a kizomba apertadinha e a de passadas complicadas, o respeito pelos “mais velhos”, o primeiro mergulho de fim de semana em Cabo Ledo, as sentadas no Mussulo com a família alargada,  as noites passadas ao Luar na Ilha do Cabo e o Pôr do Sol do Cacimbo. Tão grande, tão redondo, tão colorido, como não há outro igual.

Porque se mos tiram, eu perco sentido.

Disse-me a Marta, em visita à cidade: aqui o ar tem gosto…é doce…e as pessoas têm gosto pela vida.

Tem semba, que é morte e é vida, é suor e é gente.

Tem funge e tem mufete, tem sol e boa gente.

Tem progresso e tradição, artes plásticas, cinema e animação.

Tem Pepetela e Paulo Flores. E há muito poucas coisas, no mundo inteiro, mais encantadoras que Pepetela e Paulo Flores.

Tem inúmeros vencedores, anónimos e conhecidos, Maria do Carmo Medina e Uahenga Xitu, tão próximos nos desafios enfrentados e na hora da partida, ficando, mesmo assim, para todo o sempre ao pé de nós. Tem também uma década de paz, coroada por um Leão de Ouro em plena Bienal de Veneza de Arte Contemporânea.

Disse-me o poeta que me cedeu o nome:

“Em Luanda, onde quase tudo é talvez, tudo acaba bem. E se algo falha é porque ainda não acabou! Aí vêm as artes, os lugares, a gastronomia, os elementos identitários das pessoas e hábitos cada vez mais diversificados. No meio, as amizades e a teia de solidariedades feitas de interesses que se entrelaçam.

Agora “só” falta o essencial: precisar o que foi pedido. Com mais tempo. E para acabar bem, talvez um poema, qualquer  mescla de sons que, em Luanda, têm sempre sabor a música de uns para outros corações.”

MG

* Título “emprestado” do livro “Agora Luanda”, dos autores Inês Gonçalves e Kiluange Liberdade, que mostra “retratos da juventude de Luanda, os seus hábitos, as suas roupas, as suas músicas, as suas tradições”. Com textos de José Eduardo Agualusa e Delfim Sardo.

** In Louvação do caos, de José Eduardo Agualusa, inserido no livro referido supra.

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