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Monthly Archives: April 2014

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     Aos guerrilheiros do Mayombe,

que ousaram desafiar os deuses

abrindo um caminho na floresta obscura,

Vou contar a historia de Ogun,

o Prometeu africano.

Pepetela, in Mayombe 

 

Ainda não o li. Digo-o com alguma vergonha.

Tenho-o aqui, à cabeceira, a chamar por mim, a impedir-me de dormir…tão forte é o sentimento de culpa, tão intensa é a curiosidade latente…

O Berço de alguns dos meus antepassados…

Disse, outrora, a propósito da minha Infância, aqui:

“Muito antes de os resorts de luxo com SPAs maravilhosos serem para mim um local de desejo, e indizivelmente antes de eu querer ir ao Sul de França, Sul de Itália, Sul de Espanha, ou qualquer outro Sul, eu já tinha um Norte, que valia mais do que qualquer estância balnear: a Casa da Rua de Macau.

A casa que povoa os sonhos da minha infância. Porque as tropelias mais arriscadas, as brincadeiras mais inventivas, os lanches mais deliciosos, as brigas mais inacreditáveis e as juras mais invioláveis, aconteceram ali.”

O retorno ao Norte é sempre um retorno a Casa. 

O meu Norte fica em Cabinda, algures entre a tal casa da Rua de Macau e o coração dos meus avôs.

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Quatro gerações da família na mesma Casa. É uma bênção apercebermo-nos, a tempo, destes tesouros.

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Ainda aninhada ao colo do meu avô, questiono-me se haverá oficialmente alguma idade em que se deixe de ser neto, com tudo incluído, pulseira (invisível) de acesso a todas as áreas pendurada no pulso.

Numa vida inteira de Cabinda, o Mayombe teve sempre, à majestosa distância, um papel principal.

Verdadeiro pulmão em África, a Floresta atravessa três países (Angola,o Congo e o Gabão).

Encerra tantos mistérios que se tornou, ela própria um mistério.

Casa e armadilha para tantos…guerrilheiros, civis, animais de todo o tipo, de macacos a gibóias infinitas (contou-me o meu pai), tanto viu que poderia fazer, se o permitissem, relatos ainda mais completos que Pepetela, O Grande.

Personagem principal em obras literárias, cenário de guerra, cenário de Paz, maravilha natural sem necessitar de qualquer votação, espectadora passiva dos desvarios do Homem, leito de amor. Quem me dera saber todas as suas estórias.

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Cabinda é uma província peculiar (herdou os mistérios da Floresta!), com uma influência fortíssima dos Congos… tem ritos e  tradições muito próprios, do sotaque a gastronomia, amálgama de todas as gentes que lá se cruza(ra)m, tão diferente do resto de Angola (que, por si, é já um caldeirão de Culturas).

E a cada momento uma surpresa…

Resquícios de arquitectura holandesa algures numa buala no meio do mato…

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…o confronto com a (por vezes dura) realidade da abnegação das coisas materiais, pelo sacerdócio.

Facetas nem sempre visíveis para o comum fiel. Num local onde o ideal mundano de conforto e o conceito de “bem material” não têm lugar….

…uma ausência que se pode traduzir nas roupas de um padre a secar ao vento…

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Mas restará (estranhamente !?) a consciência, nesse Padre (e o júbilo) de ser o guardião de uma Igreja construída em 1882.

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Este País não pára de me surpreender.

Uma viagem marcante, mas ainda incompleta. Terei de lá voltar. Outra e outra vez.

E se vieres ao Mayombe, não te esqueças…vai até ao Miconje, o mais ao Norte possível,  para sentires a força deste verde, refrescado por quedas d’água.

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Muxima, no dialecto angolano Kimbundu, significa coração.

E faz, a meu ver, todo o sentido que um Santuário se chame Muxima.

Porque um Santuário é, no fundo, um local dedicado ao bem-estar do coração.

No município da Quiçama, na Província de Luanda, defronte do vigoroso caudal do Rio Kwanza, fica a Igreja de N. Senhora da Conceição da Muxima, erigida no Século XVI.

 

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Era um Sábado de Abril.

Muito quente, de céu muito azul.

Faltava uma semana para a Páscoa.

Momento oportuno, portanto.

E se toda a travessia incitava a momentos de tranquilidade quase espirituais (ah! a natureza!) , a chegada à vila da Muxima, atracção para milhares todos os anos, Igreja imponente, Fortaleza ao fundo, transporta-nos para outra era e outros locais (Alentejo? Invasão Moura? O Rio tem a função de nos trazer de volta à África).

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A Igreja, caiada de branco, enorme na sua simplicidade, encerra tantos lamentos, segredos, preocupações, choros, angústias e esperanças que me surpreende conseguir manter aquela aura de leveza…

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E a Missa, ministrada por um padre com sotaque espanhol (ah! a globalização dos afectos!), conselheiro, tal pai para os filhos, onde eu só conseguia estar de pés descalços, porque uma força superior me queria mais próximo do chão, ainda que (quase) em estado de levitação…

…porque se sente a Fé de toda aquela gente, tão diferente nos seus rogos a Mamã Muxima, mas igual na força do pedir, porque os cânticos religiosos me transportaram às missas da minha infância, porque a intensidade da Natureza à volta não foi ali colocada por mero acaso, e talvez por eu estar rodeada de quem tanto amo…

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Há coisas para as quais não adianta procurar explicação…são mesmo do coração.

Saímos da Muxima imbuídos de Amor, corações transbordantes.

Que esse sentimento queira permanecer aqui, junto do peito.

Feliz Páscoa a Todos!

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