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Monthly Archives: August 2015

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O deserto tem como caraterística principal a incapacidade de deixar alguém indiferente. Não consigo dizê-lo de outra forma.

O fascínio parece começar no imaginário de quem o deseja conhecer.

Pelo menos, foi assim que aconteceu.

Logo à chegada, e antes de nos embrenharmos pelo deserto, quisemos conhecer a cidade do Namibe.

Pacata, plantada à beira-mar, custa a crer que à sua volta há só deserto e mar. Conserva alguns imponentes edifícios coloniais, com destaque para o antigo Cine-Estúdio, uma obra de arquitetura com a assinatura do arquiteto Botelho de Vasconcelos, um edifício futurista, nunca concluído, possivelmente dos anos 60, que lembra, ao primeiro impacto, a estética de Oscar Niemeyer. Tempos de criatividade.

Quisemos logo experimentar, in loco, o saboroso caranguejo do Namibe.

Sabia a mar. Sabia a chegada. Finalmente.

A comida está, inexoravelmente, ligada às sensações que perduram de qualquer lugar em que fomos felizes.

Namibe, cujo nome tem origem no termo namib, de uma lingual local, significa «local vasto». O deserto é, de facto, um gigante de 80.900 km², estendendo-se por 1600 km ao longo do litoral atlântico do sul de Angola até ao sul da Namíbia.

Entrámos no deserto já a noite ia alta, sem nos podermos fiar na visão. Valeu-nos a audição, porque ouvíamos o bater das ondas, e o olfato, porque sentíamos o odor a mar, e a nossa imaginação, regada a adrenalina, transportava-nos além da próxima duna.

A privação da visão aguça a imaginação, e o deserto era aquilo que ela, a imaginação, ditava.

Chegámos ao Flamingo Lodge, onde ficaríamos hospedados nos próximos dias.

Isolado de tudo, tem um ambiente roots mas confortável que todo o lugar no meio do deserto, procurado por surfistas, praticantes da pesca desportiva ou meros apaixonados pelo deserto, deve ter.

Aqui, sentimo-lo, o tempo (se) abranda…

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Ao nascer do sol, tomámos um pequeno-almoço revigorante, de olhos postos no mar, a adrenalina a subir, já só nos queríamos fazer à estrada.

Será que veríamos a onda de 3 km de comprimento? E focas, golfinhos e baleias? Praias de areia roxa, tingidas pelas algas?

E por esta vez (mais uma vez!), a nossa imaginação, na noite anterior tão empolada, fez jus à realidade.

O jeep rasava a beira-mar, brincando com a água, as gaivotas rodeavam-nos por todo o lado, grasnando, tão excitadas quanto nós, e soube ali, naquele exato momento, qual era o sabor da liberdade.

Encontrámos o Vanesa Seafood, encalhado há tempos inquantificáveis, o que nos fez recordar que todo aquele deserto já fora mar.

E as dunas…

As dunas eram tudo o que nos haviam prometido. Areia fina, de tom dourado, tão perfeitamente ondulada, que parecia ter sido estilizada na noite anterior por um paciente modelador, cuja função lhe havia sido atribuída há vários séculos.

Suspiro.

De que forma tanto nada forma um império de areia, e permite paisagens singulares, em nada iguais às anteriores?

Perdemo-nos ao olhar em redor, sem conseguir conter o espanto e os sorrisos, ofuscados pelo brilho do sol na areia e pelo céu azul, límpido como em nenhum outro lugar.

O Canyon pareceu-me o local perfeito para uma ópera em pleno deserto, mas não sei se os montes de areia, quais rochas monumentais, iriam suportar a intensidade de uma ária.

O Arco, um oásis no deserto, compreende três lagoas, sendo a do meio a mais famosa, pela existência de arcos criados naturalmente nos arenitos, batizando desta forma este local paradisíaco.

Na altura sem água, completamente ressequido, uma placa indicando a proibição de mergulhar desafia os limites da nossa imaginação.

Teremos de voltar, prometemos, para ver o lago, e quem sabe, dar um mergulho proibido numa noite de lua cheia.

O tempo não se detém. Segue em frente, indiferente.

De coração cheio de tanto deserto, dou por mim a olhar pela janela, de volta à secretária. Pele queimada do sol do deserto, restos de areia na bagagem, mais histórias para contar, sorrio, feliz, ciente de que há ainda muito por viver, e descobrir.

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Que haja tempo, sempre.

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*Texto publicado na edição n.º 51 da Revista Espiral do Tempo (sob o novo acordo ortográfico).

**Fotografias de Bernardo Gramaxo e Mauro Motty

 

 

 

 

Lubango

Há algo de muito especial em aeroportos de cidades pequenas. Aterrar no meio da pista, desembarcar ali mesmo, pelo próprio pé, sem manga ou autocarro, cheiram-me sempre a aventura.

Um arco-íris imenso cobria um dos lados da pista, que parecia encarregue de dar as boas vindas à cidade do Lubango.

O Lubango tem estatuto de cidade desde 1923 e foi, outrora, apelidado de «Jardim de Angola». Sofreu com a passagem do tempo, é certo, mas esforça-se por preservar a dignidade de outros tempos.

Conserva ainda toda a sua beleza naturalmente inspiradora (é assim o verde!), que envolve cascatas, serras, longas planícies, fendas gigantes, uma estrada em ziguezague que desemboca no deserto, tudo isto abençoado pelo Cristo Rei que observa lá de cima com ar complacente.

Basta a primeira volta de carro pela cidade e arredores para percebermos que estamos noutra dimensão, e que passamos da ditadura temporal para outro regime bem mais aprazível.

Fenda da Tundavala

Tínhamos destino marcado: O Descanso.

«Pululukwa» significa «descanso» na lingual nacional, o umbundo, e é um resort situado nos arredores da cidade do Lubango, mas que poderia estar localizado em qualquer outro lugar do mundo, tal o ecletismo com que se apresenta, o que lhe confere uma aura internacional.

Com decoração rústica mas requintada, as suas ‘aldeias’ lembram tanto a Madeira (sim, o arquipélago português) quanto um kimbo[1] do sul de Angola. Decorado com peças vindas da Tailândia e outras paragens exóticas, tetos sul-africanos que sugerem aconchego, sempre, no entanto, com uma angolanidade bem presente…e com tantos outros pequenos pormenores que fazem uma grande diferença. Como a atenção e o sorriso aberto de quem nos recebe. E os doces caseiros feitos com frutos da terra.

E como não ficar descansado se por todo o lado há o murmúrio meio lamechas da água a correr, o cheirinho a goiaba madura que vem das árvores à entrada dos chalets, mesmo à distância de um esticar de braços, para alimentar o ócio, e um restaurante cuja ementa é flexível aos caprichos das estações e que faz questão de ter como convidados de honra as iguarias do Lubango. Por isso, não se espantem se a deliciosa carne da terra for acompanhada de brincos-de-princesa, nem se o refresco for um granizado de goiaba acabadinha de apanhar.

E imagine acordar com zebras à janela.

Tudo isto é Pululukwa.

No dia seguinte, o passeio pelo Lubango confirmou as expetativas da véspera.

Vimos as cascatas da Huíla e da Hunguéria, que pediram mergulhos festivos, a Nossa Senhora do Monte com a sua função dual de confessionário e miradouro com vista sobre a cidade, a profunda Fenda da Tundavala, tão enigmática e única, que decerto esconde as respostas para muitos dos mistérios da Humanidade, a Serra da Chela, que seguindo a linhagem carioca e lisboeta, é coroada pelo Cristo Rei, provámos os morangos do Lubango, os mais famosos do país, e não pudemos deixar de experimentar o chouriço da terra.

Serra da Leba

Uma verdadeira viagem dos sentidos.

Depois de saciarmos a sede na água do rio, ouvimos o mujimbo[2] de que estaria o Kimbo do Soba pronto a receber-nos, um restaurante especializado em carne de caça, já a galopar para a grelha: javali, órix, cudo….e crocodilo!

O Lubango a surpreender.

Mas chegou o tempo de partir…

Decidimos seguir a rota de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, rumo a contracosta.

Emudecemos perante o pôr do sol…aquele imenso, de cor amarela, laranja, vermelha, de todos os tons, o prometido por do sol africano, ao descer a maravilhosa, curvilínea, feminina e estonteante Serra da Leba, que insiste em marcar encontros sucessivos, num infindável namoro, com o Deserto do Namibe.

 

[1] Kimbo — aldeia, pequeno povoado.

[2] Mujimbo — notícia geralmente infundamentada e anónima, difundida publicamente; boato, mexerico.

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*Texto publicado na edição n.º 51 da Revista Espiral do Tempo (sob o novo acordo ortográfico).

**Fotografias de Bernardo Gramaxo.

 

Está calor, demasiado trânsito, e os ponteiros do relógio impõem, minuto após minuto, ruidosamente, a ditadura do tempo.

O quotidiano de Luanda é demasiado intenso…

Sentada à secretária, conto os tais minutos (os segundos, talvez) para seguir para o aeroporto e embarcar rumo ao destino escolhido. Uma outra Angola, tão diferente daquela que vislumbro por entre a janela, com vidro, betão e aço inoxidável a entrecortar a vista para o mar.

Luanda é bonita, ainda assim.

Mas…há o verde do Lubango…e as dunas do Deserto do Namibe.

Outras paragens esperam por nós.

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De onde estou, parece um destino tão próximo quanto distante, sensações inexplicáveis por se tratarem de realidades que, por tão díspares, me parecem etéreas.

É continuar por Angola, mas sair das tais sensações do quotidiano, porque saímos de facto de uma zona de conforto que nem sempre é confortável, e porque para animais do betão, que somos nós, os meios mais naturais podem parecer ser os mais agrestes.

Estamos tão enganados…

O apelo da descoberta é superior a qualquer cansaço ou receio. É tempo de descobrir.

É frequente questionar-me, nesta que considero ser a (minha) fase de (re)descoberta de Angola, se somos nós a (re)descobrir o país ou se é o país que se está a (re)descobrir, permitindo que nos redescubramos em cenários inéditos.

Quem será, pois, o sujeito ativo nesta estrutura frásica?

E também porque, num tempo diferente do tempo de agora (parece redundante? Quem viveu Angola sabe que não), em que conhecer o país se afigurava tarefa hercúlea, por força do tal tempo, essa descoberta de que falo é afinal um aprendizado.

O Lubango…vem já a seguir.

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*Texto publicado na edição 51 da Revista Espiral do Tempo (sob o novo acordo ortográfico).

**Fotografia de Mauro Motty

Caros Amigos,

A Revista Espiral do Tempo quis saber como se movem, por Angola, os ponteiros do relógio.

Com enfoque na alta relojoaria, a revista faz a simbiose perfeita entre o fascínio pelo objecto – medidor do tempo – e a relevância que o tempo – etéreo, de valor inquantificável – tem no desenrolar dos nossos dias.

É com imenso orgulho que anuncio a parceria The Alexe Affair & Espiral do Tempo, a partir do número 51 da revista, mesmo a tempo do verão de 2015, pela qual me foi dada a oportunidade de traçar destinos cá por dentro.
“Tempo e viagens: Angola pelas palavras de Alexandra Gonçalves, a carismática autora do blogue The Alexe Affair com quem tivemos a honra de contar na nossa mais recente edição de verão. Texto completo e imagens de cortar a respiração para descobrir no nosso site”

Espiral do Tempo

Espiral do Tempo - Perfil AlexandraGoncalves

O tempo, de descanso e aventura, passado entre o Lubango e o Namibe ficou retratado no n.º 51, mas muito mais está por vir, ainda em 2015.

Na próxima edição, por que caminhos nos levarão as estradas de Angola?

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Saí de casa apressada, quase a reclamar do calor, mas dei por mim a agradecer pela luz do sol.

Nem sequer me atrevo a descrever o trânsito. Hora e meia e 200 Kwanzas depois (não há “parqueamento” grátis na cidade), um lugar perfeito para estacionar.

O dia a começar bem.

Esquivo uma grelha de peixe a fumegar, digo olá ao rapaz que vive de estacionar carros, sou repentinamente abordada por um candongueiro que me pergunta se vou para os Congolenses, vislumbro mais uma torre megalómana que cresceu da noite para o dia, penso na maka do Kwanza e faço uma check list mental para o fim-de-semana no Mussulo.

Está mesmo muito calor. Apetece-me dar um mergulho, mas já estou sentada à secretária. Tento alhear-me dos barulhos lá fora (são tantos), mas o quotidiano pitoresco da cidade entra pela janela, invade os computadores, mistura-se connosco e…

Bem disse Agualusa[1]:

 “Se fosse uma ave, Luanda seria uma imensa arara, bêbada de abismo e de azul. Se fosse uma catástrofe, seria um terramoto: energia insubmissa, estremecendo em uníssono as profundas fundações do mundo. Se fosse uma mulher, seria uma meretriz mulata, de coxas exuberantes, peito farto, já um pouco cansada, dançando nua em pleno carnaval”.

Luanda

…o que é Luanda para mim? É essa a pergunta?

Também uma mulher. Tem de ser uma mulher. Não uma mulher composta, sóbria, racional e de boas famílias. É apaixonada, arrebatada, um tanto desequilibrada, tão quente e tão vibrante, que desequilibra o ser mais estudado. Mas sem ela, fica tudo mais cinzento.

Por ela não é possível ter um sentimento morno, indiferente. Se assim for, já não se vive, existe-se apenas em estado meio comatoso.  Porque ela chega, de lábios pintados de encarnado, enfeitiça-nos, canta o seu canto de sereia (o tal canto da Kianda) agarra-nos e quando menos esperamos, deita por terra quaisquer convenções e pré-conceitos antes deambulantes.

Luanda exótica e húmida. Uma mestiçagem de vivências. Talvez uma estilização da Cultura Angolana, fazendo jus à profundidade da nossa (minha e sua) mesclada herança.

Um novo país sem fronteiras, uma terceira cultura, uma raça parida da fusão cultural.

Em pouco mais do que uma década de paz, não há tirada genial que expresse tudo o que foi vivido. Nem previsão possível para o que ainda está por vir.

Uma cidade que se está a redescobrir (ainda mais do que a ser descoberta), com lugares, gastronomia, artes e sonoridades com traços antigos e novos, elementos identitários e hábitos cada vez mais diversificados.

Luanda é hoje uma cidade com um ritmo ímpar, cosmopolita, jovem e vibrante, aberta à mudança e às tendências mundiais, exímia representante da nova África que agora se apresenta ao mundo.

Procura, no entanto, a sua identidade, porque dentre a modernidade crescente tenta não esquecer as suas Tradições.

A cidade contagia-nos. Transmite-nos o seu caos ambulante. Vejo-me constantemente, por causa dela, a tentar colocar uma ordem nos meus sentimentos – pensamentos confusos. Vou chamar-lhes “pensações”.

Luanda é caótica, estaleiro de obras, mais um estado de espírito do que uma cidade. É – se Luandense porque se respira os seus (des)encantos, porque se adopta esse estado…quase civil, quase da alma.

Ah! E inspirada por ela tive uma ideia imbatível (terá sido minha?)

Vou mandar catalogar como património da humanidade a gargalhada dos angolanos, os almoços de Sábado, os festejos com os amigos à beira – mar em noites de sempre – verão, a kizomba apertadinha e a de passadas complicadas, o respeito pelos “mais velhos”, o primeiro mergulho de fim de semana em Cabo Ledo, as sentadas no Mussulo com a família alargada,  as noites passadas ao Luar na Ilha do Cabo e o Pôr do Sol no Cacimbo. Tão grande, tão colorido e marcante, como não há outro igual.

Porque se mos tiram, eu perco sentido.

Luanda tem semba, que é morte e é vida, é suor e é gente.

Tem funge e tem mufete, tem sol e boa gente.

Tem progresso e tradição, artes plásticas, cinema e animação.

Tem Pepetela e Paulo Flores.

Tem inúmeros vencedores, anónimos e conhecidos, Maria do Carmo Medina e Uahenga Xitu, tão próximos nos desafios enfrentados e na hora da partida, ficando, mesmo assim, para todo o sempre ao pé de nós.

Agora só falta o essencial: precisar o que foi pedido. Com mais tempo. E para acabar bem, talvez um poema, qualquer  mescla de sons que, em Luanda, têm sempre sabor a música de uns para outros corações.

Agarremo-nos à beleza da jornada, vamos ter que esperar pelo final.

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[1] José Eduardo Agualusa, in Louvação do Caos.

*Texto publicado no Livro Taras de Luanda, editora Chá de Caxinde, 2015

**Fotografia de Bernardo Gramaxo

 

Uma declaração de amor a cidade de Luanda.

Esta é apenas uma das formas possíveis de descrever a obra “Taras de Luanda”, que reúne textos de 16 autores, lista que orgulhosamente integro, e que está já disponível, sob a chancela da Editora Chá de Caxinde.

Os direitos de autor revertem para a Aldeia das Artes – Meninos do Mussulo.

O The Alexe Affair recomenda imensamente a obra, a todos aqueles que tenham ligação emocional com Luanda, ou apenas curiosidade sobre os meandros desta cidade tão envolvente.

Taras de Luanda

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