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Monthly Archives: February 2016

O semba é nossa alegria

O semba é a nossa bandeira

É esperança é amor

 

Paulo Flores, in «Poema do Semba»

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Guitarra e voz, pela madrugada fora. Tenho uma relação quase visceral com a música. Uma voz paciente, apaziguadora. A voz do meu pai.

Talvez o primeiro som de que tenha memória.

O choro insistente de uma criança a dar o mote para esta forçada tertúlia familiar.

Um amor incondicional pela música a formar-se desde esse momento.

Entendo a música como o som dos nossos sentimentos.

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Mais de 30 anos depois, guitarra e outra voz, numa sala escura, em desejada tertúlia musical.

A respiração em suspenso, à espera do acorde seguinte, a alma em êxtase, um sorriso indelével nos lábios, a música a ocupar o seu lugar. Lá em cima, no palco.

Sou de um país que tem um sentimento de ligação inexorável com a música.

Esta é a espinha dorsal da nossa cultura. A forma de arte que melhor entendemos e melhor nos entende. Música é suor e é gente, é arte e nunca mente.

O som começa cedo. Talvez não termine nunca.

O quotidiano tem banda sonora, que percorre as veias da cidade e se entranha no grito das vendedoras de peixe, logo pela manhã, no arrastar de chinelos de quem acorda cedo, soando a dikanza [1], no primeiro balde de água atirado para o quintal, no chamamento insistente dos candongueiros, nas crianças que correm para a escola, nas buzinas dos carros, nas gruas dos estaleiros de obras, nas rádios que tocam as músicas de hoje e as de sempre, nas gargalhadas em uníssono em dias de sempre — verão, nas ondas do mar, nas noites em que não mexe uma folha e os corpos, transpirados, se envolvem num longo abraço dançado, e o ritmo marca o compasso dos corações.

Parece-me mesmo que a música tem sabor…

O mufete cai bem com a kizomba, o funge é ‘ritmado’ ao som do batuque, as novas sonoridades, ecléticas, afromundiais, condizem com cozinha de fusão…

Luanda é o berço de estilos musicais como a kazukuta e o semba [2].

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Na ilha de Luanda, nasce a rebita — terão as bessanganas[3], em adoração a Kianda[4], gerado a rebita? — acompanhando a intensidade das calemas[5] e as redes dos pescadores.

O semba, a nossa bandeira, que partilha raízes com o samba[6] — histórias entrelaçadas de duas culturas que se influenciam — é também o predecessor da kizomba e do kuduro.

Música urbana que cresce, ramifica, expande e se reinventa com as cidades.

Afro-house, afro-jazz, house apenas, jazz apenas, melodia com identidade, sem tempo nem espaço, fusão entre o africanismo e o mundo, música contemporânea apenas, sons que se misturam e interligam, que ultrapassam fronteiras e revelam novos mundos.

Percorri o país, procurando pontos de encontro, uma explicação para questões intemporais pendentes, origens culturais, antagonismos pendurados e, sem o ter desejado, encontrei um fio de ligação entre o Norte e o Sul: a música.

 

Cabinda.

Norte. História, mistério, lendas, tradição, Mayombe.

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À procura da nossa cultura, encontrei gigantes dançantes em vestes imponentes e rostos ocultos por máscaras artesanais.

Os Bakama, um dos mais notáveis símbolos da cultura Cabinda, são uma instituição secreta, excecional, uma espécie de religião tradicional, cujo centro e principais manifestações ocorrem no Morro do Tchizo.

Imbuídos da missão de baluarte dos princípios e da moral, efetuam exibições em cerimónias relevantes na vida da comunidade, de que a música e a dança fazem parte integrante.

Com regras muito próprias, e um secretismo imenso relativamente à identidade dos integrantes do grupo, cada um dos membros tem um nome, uma posição e um significado específicos, todos ligados à exaltação de virtudes, princípios morais, e ao poder dos espíritos da terra.

É preciso uma autorização especial do líder do grupo para a realização da cerimónia, e um acordo relativamente às oferendas, que são minuciosamente selecionadas.

Dançam como quem ora, folhas secas de bananeira que adornam a indumentária ao vento, máscaras expressivas que obrigam à adivinhação, transformando-os em quase deuses, os cânticos batucados a elevar a cerimónia, a conferir leveza aos movimentos, a fazer-nos acreditar.

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Uma autêntica oração dançante.

Um ritual único, irrepetível, de origem desconhecida, paragem obrigatória no tempo, nunca mais de lá consegui sair.

 

Namibe.

Sul. Deserto, Iona, tradição, nómadas, Himbas.

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Percorremos o Parque do Iona em picada incerta durante cerca de sete horas, olhos inquietos entre o relógio, os animais que galopavam ao nosso lado, a vegetação, ora escassa, ora surpreendente, paisagens de vários tons, de cores inimagináveis por detrás de cada monte.

O coração a bater meio sem ritmo, descompassado, ansioso por tudo o que não podíamos apreciar com tranquilidade, porque tínhamos encontro marcado, à hora dourada, com eles: os Himbas.

As mulheres cobertas com otjize[7], tons de pele ocre, perfumadas, peitos orgulhosamente exibidos sem nota de malícia, pulseiras exuberantes nos pés e nas mãos, as cabeças ricamente adornadas, um ideal de beleza totalmente diferente do convencional. Ainda assim, e talvez por isso mesmo, belíssimo.

Olhavam-nos com curiosidade.

Não sabíamos bem qual era o nosso papel ali, a curiosidade e o fascínio a toldar-nos a mente.

Decidi fazer parte da tribo, misturar-me, fundir-me, sair de uma zona de conforto pouco confortável e deixar de observar de fora para dentro.

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O ritual de transformação começou pelo exterior, pela renegação das minhas roupas ocidentais e pela unção da minha pele com o otjize. Fui recebida e acarinhada pelas mulheres da tribo como se fizesse parte dela, fui adornada pelos seus adornos, e descobri que a linguagem da música é a melhor forma de comunicação.

Em roda com a tribo, sem instrumentos, apenas com o ritmo do bater das mãos, pés, e sons feitos com a boca, foi criada música naquele momento de comunhão, de transe coletivo, em que perdi a noção do tempo, me perdi no tempo, num tempo sem fim.

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Entre este Norte e Sul, outras sonoridades se encontram.

Voltamos aos sons do quotidiano. Esperamos por novas melodias.

Mesclamos tradição e modernidade, traçamos percursos musicais até que o mundo faça sentido.

Nela, na música, se encerra a nossa alma.

assinatura

 

[1] Reco–reco.

[2] Outros estilos e subgéneros não constam injustamente desta pequena lista.

[3] Mulher luandense, da Ilha de Luanda, que se veste de forma tradicional, com panos.

[4] Sereias, ‘espíritos das águas’ e uma das entidades reguladoras do mar, dos lagos, dos rios, dos peixes, das marés e da pesca.

[5] Ondas gigantes.

[6] A palavra samba tem origem no semba e significa ‘umbigada’.

[7] Mistura de manteiga, feita de leite de vaca coalhado e pedra ocre triturada, que confere à pele um tom avermelhado, e que serve provavelmente como proteção do sol e vento. Hidrata a pele em profundidade e é um elemento de atração do sexo masculino.

NB. Texto publicado na Ed. 53 – Dez. 2015 / Jan. 2016 da Revista Espiral do Tempo

Fotografias de Sérgio Afonso e Alexandra Gonçalves, para a The Art Affair e a The Takes

Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal

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