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Monthly Archives: May 2016

O artigo “Angola, Um País à Beira Mar”, da Revista Rotas & Sabores, está de volta!

Nesta 2a edição, que conta também com a colaboração do The Alexe Affair, e que anunciámos aqui, a Costa angolana, de Norte a Sul do País, foi novamente explorada para lhe mostrar a beleza da nossa paisagem e o azul do nosso mar.

Vamos a mergulhos em Cabinda?

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É a Província mais a Norte de Angola e nasceu da fusão de três reinos: Makongo, Mangoyo e Maluangu. Hoje, essa herança histórica ainda perdura, o que faz de Cabinda um lugar com tradições muito fortes, e características muito próprias, que a tornam encantadora. A sua floresta do Mayombe é um dos principais pontos de atracção e a cidade em si respira um certo ecletismo, já que americanos e franceses foram atraídos por um dos seus tesouros valiosos, o petróleo.

Praia: Fútila

Tipo de Praia: Familiar e de relaxe.

Localização: A 20 kms a Norte de Cabinda.

Como ir: de fácil acesso, qualquer viatura é adequada para lá chegar.

Nível de dificuldade dos acessos: 1

Onde ficar: Fútila Beach, Palhota, Alaza – Caio.

O que comer: As iguarias de Cabinda são inesquecíveis – não se esqueça de provar a Sacafolha, maiaca e chikuanga. Não as vai encontrar em nenhuma outra província.

Conselhos úteis: Explore! O enclave está cheio de mistérios escondidos, e o Mayombe é simplesmente abismal.

O melhor: a localização, a poucos kms do centro da Cidade.

O pior: A praia tem actividade piscatória, o que lhe confere encanto. Mas por vezes, a actividade constante dos pescadores poderá interferir com o seu descanso.

Exclusivo: Uma ponte (quase) em ruínas, perfeita para enquadramentos fotográficos de sonho.

Surf Spot: Em estudo. Em períodos de swell grande, há a forte probabilidade de ser uma praia surfável.

Ligação ao mundo? Sim.

Outras praias na zona: Cacongo, Mangue Seco, Girassol, Mandarim e Baía do Malembo.

Além da praia: Se procura história, tradições e ritos inexistentes noutra parte do mundo, então está no sítio certo. Vá até ao Morro do Tchizo e conheça os Bakama, um dos mais notáveis símbolos da cultura Cabinda, uma espécie de sociedade secreta, que usa vestes adornadas de folhas de bananeira e máscaras artesanais, ocultando os rostos, e assim trajados efectuam exibições em cerimónias relevantes na vida da comunidade.

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*Fotografias de Sérgio Afonso, para a The Art Affair e a The Takes.

 

Economia & Mercado - Figura do Mês - AG 1A ENTREVISTA NA ECONOMIA & MERCADO

Qual a receita para ser uma boa advogada, principalmente na conjuntura em que nos encontramos?

Não há certamente uma resposta única a esta questão, dado não existir, infelizmente, uma fórmula única para o sucesso.

A meu ver, formação constante, o radar ligado à actualidade socioeconómica e às novidades legislativas, bem como imprescindíveis (muitas) horas de trabalho, poderão sem dúvida contribuir para o sucesso na advocacia. Ter um objectivo bem definido e seguir à risca o plano estipulado para o alcançar, em acréscimo, será a cereja no topo do bolo.

A seguinte máxima de Alvin Toffler poderá servir como guidance para quem queira vingar profissionalmente, ainda que em conjunturas mais difíceis, como a que atravessamos: “Ou se tem uma estratégia própria, ou então somos parte da estratégia de alguém”.

Que grandes desafios tem pela frente?

Em síntese, construir uma carreira sólida e com consciência social, em Angola.

Que obstáculo encontra para alcançar as metas que pretende alcançar?

Devido a exposição internacional que a profissão proporciona, temos necessariamente de trabalhar com o mesmo rigor, eficiência e expertise que os nossos congéneres noutras partes do Mundo, o que nem sempre se afigura fácil.

Vivemos num país ainda em fase de transição, que nos apresenta diariamente desafios – por vezes obstáculos – pessoais e profissionais, que mutuamente se influenciam.

Mas o povo angolano é estóico, tem uma história de superação e acredito que esta geração, mais formada e internacionalmente exposta, poderá fazer a diferença, a todos os níveis.

Como avalia o ensino da área jurídica em Angola, particularmente no ramo em que actua?

Estamos na incontornável fase da “quantidade”…existem inúmeras Universidades a leccionar o curso de Direito, com níveis de qualidade diferentes.

Há duas ou três que claramente se destacam, sendo que o esforço individual de cada aluno poderá suplantar as eventuais deficiências do curso.

Os conteúdos curriculares deverão, no entanto, ser futuramente ajustados, de forma a abranger matérias que tradicionalmente não fazem parte do leque de cadeiras obrigatórias, tais como a Arbitragem (método alternativo aos tribunais judiciais para a resolução de litígios) e Direito do Petróleo e Gás, apenas para citar alguns exemplos.

Alexandra Gonçalves Data:11 de Abril 2016 foto:Carlos Aguiar

Alexandra Gonçalves
Data:11 de Abril 2016
foto:Carlos Aguiar

Qual é sua opinião face à actual situação económica do país?

Vivemos tempos de incerteza que se poderão transformar, tomadas as decisões correctas, em tempos interessantes.

A queda abrupta do preço do barril de petróleo teve efeitos imediatos sobre as receitas da economia nacional, ancorada essencialmente na produção petrolífera.

A quebra da dinâmica de crescimento na África Subsariana afecta, igualmente, a capacidade de crescimento económico de Angola. Teremos menos exportações, menos investimento público e, expectavelmente, menos investimento privado (nacional e estrangeiro).

Temos, por isso, necessariamente de entrar num novo ciclo económico de estabilidade não dependente do petróleo.

Neste clima de “ausência de fartura”, é urgente a gestão eficiente de todos os players do mercado, em prol da diminuição do despesismo, da substituição do petróleo como fonte principal de receita, do aumento da produção interna e das exportações.

No entanto, essa urgente reviravolta só poderá ser possível com a formação e capacitação dos quadros nacionais, do apoio ao empreendedorismo nacional e aos novos empreendedores, e de um investimento considerável em áreas de futuro, tais como a agricultura – há neste momento cerca de 20.000 cooperativas agro-pecuárias registadas no país – e o turismo interno – o sector da hotelaria e turismo criou, nos últimos anos, 191 mil postos de trabalho directos.

Estes são números animadores, embora insuficientes.

Que aspectos distinguem o mercado angolano da realidade dos países com quem Angola tem parcerias económicas?

Angola tem parcerias económicas com países com realidades muito distintas.

Vivemos actualmente numa economia instável, a depreciação do Kwanza chegou a cerca de 40%, a inflação sobe há 14 meses consecutivos. Não estamos, por isso, a nível regional e internacional, numa situação muito favorável, quando comparados a países economicamente estáveis.

Não obstante as inúmeras riquezas naturais e de haver muitas áreas por desenvolver, certo é que o futuro do país – e do continente – depende das pessoas e não dos bens.

Há, portanto, que importar as boas práticas, vigentes em países mais desenvolvidos e adaptá-las a nossa realidade, de forma a diminuir as discrepâncias que possam afectar parcerias económicas saudáveis.

Como referi, tal só será possível, em primeira mão, com a aposta na capacitação do capital humano, de forma a garantir o desenvolvimento sustentável do país.

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Caotinha AG

Há qualquer coisa de muito entusiasmante nas road trips.

Fazer as malas, preparar tudo o que for (aparentemente) imprescindível para a viagem, equipar o carro, decidir o horário de partida, fazer o diário de bordo, contar minuciosamente cada quilómetro percorrido, qual conquista, descobrimento, 500 batalhas de uma guerra, 500 beijos apaixonados, 500 km Luanda-Benguela…

Entusiasma-me o domínio da paisagem.

Pelo menos, a sensação de domínio que a natureza, complacente, por vezes nos deixa experimentar.

E essa paisagem não é constante, não é nuvem de fora da janela do avião!

É caótica à saída de Luanda, com passagem cultural pela praça do artesanato e o Mussulo lá ao fundo, sempre convidativo.

Há, gradualmente, cada vez mais natureza, de que por vezes nos esquecemos quando embrenhados nos arranha-céus e na movida eletrizante de Luanda.

E o conta-quilómetros continua!

E vou eu a conduzir, banda sonora cautelosamente selecionada, em altos decibéis, canto feliz por ver o Miradouro da Lua, silenciosamente lunar, já lá atrás, e dou um aceno ao rio Kwanza.

Caotinha 2 AG

 

A mente voa, levezinha, e sobrevoa a paisagem, que vai mudando ao longo do caminho.

Finalmente, Cabo Ledo!

Que súbita vontade de dar uma guinada ao volante para a direita e descer para a Praia dos Surfistas, para um mergulho rápido, cumprimentar os amigos e seguir viagem. Mas lá mais para baixo algo muito especial esperava por nós.

A viagem já é real!

Saímos da zona de conforto, do habitual.

E não há escala de avião, milhas de voo acumuladas nem revista no detetor de metais que superem a excitação da comunicação entre carros, e com a família, com os outros amigos, com quem ficou, com quem vai, com quem passa e ultrapassa…

Porto Amboim. Abastecer o carro. E vocês? Sumbe.

Vai a marginal almoçar, e fica atenta ao verde da paisagem. Sempre presente a poesia do meu pai.

Rio Kwanza, rio Longa, rio Keve.

A Canjala, linda, outrora palco de horrores. Mas a história já seguiu viagem.

E a (re)descoberta de um país, hoje (felizmente) com duas caras… a do progresso determinado em apagar as marcas do que aconteceu ao virar da esquina (disse-me o tanque de guerra ferrugento, que há muito conta as suas histórias ao pé da ponte da Barra do Kwanza)… e a da natureza viva, verde (e vermelha, e plana, montanhosa, imensa, maravilhosa), que brota indomável dos dois lados da estrada (que, parece-nos, vai desembocar no paraíso, que fica logo atrás da próxima serra) e que transforma esta viagem numa aventura, porque nos lembramos de repente que estamos em África e que somos todos potenciais descobridores!

Ainda antes de chegarmos ao nosso destino, a cerca de 43 km do Lobito, há uma maravilha natural, desconhecida para muitos, que ‘merece’ 30 km de picada apenas para deleite dos olhos e preenchimento do coração.

De nome exótico, local onde o rio Balombo se encontra com o mar, palmeiras imperiais e montanhas a lembrar pirâmides[1], o Egito-Praia é dos lugares mais paradisíacos que conheço em Angola.

Terminus BG

Benguela. Acácias rubras. Flamingos cor de rosa.

Mas poderia também ser conhecida como a província do mar azul, cristalino, sonhador.

É uma das províncias mais importantes de Angola. Ainda guarda uma certa pacatez, e tem recuperado, com sapiência, ao longo dos anos, o seu lugar de destaque.

Há uma certa rivalidade entre as cidades do Lobito e Benguela, mas quem chega divide corações, tempo e quilometragem entre as duas, porque uma só é perfeita porque a outra lá está, e porque é (sim!) possível ter dois amores.

E o Lobito começa caótico, barulhento, feio mesmo, kupapatas[2] a zunir de um lado para o outro, mas continua, não desanimes, segue em frente, procura a Restinga, ela faz-te um mar de promessas que são cumpridas pelo pôr do sol vermelho-fogo e pelas gargalhadas de amigos com os pés na areia da praia.

É o encontro dos aventureiros!

Pilotos e navegadores. Homens e mulheres.

Unidos na vontade urgente de brindar com uma Ngola e comer amêijoas no bar da tia Fátima, o mar ao fundo, resquícios do espetáculo solar ainda no céu que serve de pano de fundo a esta cena.

A Restinga do Lobito, tão bonita (assim a cantam Yola Semedo e Paulo Flores), é o meu lugar preferido na cidade.

Guarda a aura de outros tempos, com os seus edifícios de arquitetura colonial, tão imponentes, as vivendas à beira-mar, uma certa nobreza…

Cine Restinga BG

Desses edifícios, tenho predileção pelo do hotel Terminus, o mais histórico e tradicional da região.

Mesmo em frente à praia, é paragem obrigatória na cidade, para fazer uma refeição entre mergulhos de mar.

O primeiro mergulho das férias.

Talvez a sensação mais refrescante do mundo.

Nas águas da Baía Azul, na clarividência e ‘azulescência’ da beleza da Caotinha, ilhas gregas personificadas, num sem número de praias de água quase transparente, no palmo de costa mais bonito deste país pleno de natureza viva.

E vamos a caminho dos mistérios do Dombe Grande.

Vemos à beira da estrada as vestes tradicionais dos mumuílas, animais a meio da estrada, e lembro-me mais uma vez de que estou em África profunda. A sensação é boa!

Terra mítica, dizem os mais velhos. De feitiço, diz-se baixinho.

Terra onde se deve beijar o crocodilo, para dar sorte, diz o povo. Fala-se muito, mas à boca pequena, com cuidado. Fazem-se tratamentos, por aqueles que «os fazem», e mais não se diz.

Explicou-nos o Tony, o pastor de mais de 100 vacas, que nos fez uma visita guiada pelo Dombe. Terra de palmeiras, com vestígios de outros tempos — fábrica açucareira, vivendas coloniais — uma mistura férrea entre metais e madeira, criando impossíveis matérias novas.

Árvore férrea BG

Do Dombe Grande seguimos para a Equimina, zona de pescadores, no meio de nenhures…

O objetivo final era chegar à Baía dos Elefantes.

Ouvi o nome e liguei logo o radar.

Quem é que não quereria chegar a uma praia praticamente deserta, de nome peculiar, águas azul-esverdeadas, que para alcançar, é necessário negociar com os pescadores uma boleia de barco, ou agarrar no jeep e fazer TT por vales «inasfaltados» e «des-sinalizados»?

Nós quisemos.

Sem GPS ou placa que nos pudesse valer, como verdadeiros descobridores. Tudo a olho e a confiar nas indicações de quem, ao acaso, connosco se cruzasse pelo caminho, comunicação extremamente dificultada pelo nosso desconhecimento de uma língua nacional.

Se nos perdêssemos, tínhamos a segurança de um manjar composto por bolachas, queijo e vinho branco… devia dar para sobreviver durante uma semana…

E, de facto, valeu a pena!

As tais águas azul-esverdeadas, prometidas, lá estavam, a praia quase deserta (pergunto-me: quantas praias assim haverá ao longo da costa ocidental angolana, esperando pacientemente por serem descobertas?), montanhas que a mim lembraram manadas de elefantes, e uma chuva morninha que, de dentro de água, «sentia» a carícias do céu.

A cereja no topo do bolo, melhor, a «cuca no topo do prego»: no bar Ferro Velho, em Benguela, bem acompanhados por um pôr do sol e aves no céu, fechámos a tarde.

Ombaka kuia![3]

E no último dia só apetecia não ir embora… os mergulhos na praia do Terminus não aplacaram a tristeza da despedida… daquela tristeza sorridente que se tem imensa alegria por sentir.

Caso para cantar…

Quando eu fui a benguela não quis regressar[4]

Ao ver Praia Morena

Fiquei a sonhar…

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[1] O nome Egito-Praia foi atribuído pelos primeiros portugueses a chegar à região, por confundirem as suas montanhas em forma de pirâmide com as pirâmides egípcias.

[2] Jovens motociclistas que transportam pessoas e bens a troco de dinheiro.

[3] Benguela é muito boa.

[4] Música original de Fernando Quental.

 

*Crónica originalmente publicada na Edição 54 da Revista Espiral do Tempo (Primavera 2016). Para aceder a publicação original, clique aqui.

Fotografias de Alexandra Gonçalves e Bernardo Gramaxo.

Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal.

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