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Monthly Archives: August 2016

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Seriam apenas alguns (demasiado poucos) dias em São Tomé, um país tão pequeno e com tanto para experienciar… Porque ver, visitar, dar uma vista de olhos não seria, de todo, suficiente. Seria necessário despirmo-nos (quase literalmente) de toda a bagagem trazida, e deixarmo-nos embrenhar nesta experiência mágica.

O ilhéu das Rolas, ali ao lado, é de passagem obrigatória pelo incontornável marco do Equador, onde o Norte e o Sul conseguem ser envolvidos num abraço.

Um momento marcante da viagem, em que nos sentimos descobridores, no meio da floresta equatoriana, com o sorriso pueril de quem acaba de concretizar mais um sonho de viajante.

De volta à ilha, seguimos para norte.

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Praias de água cristalina, areia branca, coqueiros e o verde sempre presente. O paraíso, sem dúvida. Demos mergulhos deliciosos a cada paragem, sem a mínima preocupação com as roupas encharcadas, sem querer um espelho à mão, sem nos movermos um centímetro se de repente começasse a chover.

O epíteto da liberdade e comunhão com a natureza.

Praia dos Tamarindos, Mucumbli, Lagoa Azul. Um dos pores-do-Sol mais bonitos de que tenho memória.

Pelo Sul, parece impossível que no tal paraíso haja uma ‘boca do inferno’, que poderia ser, pela bravura do mar e exotismo, o porto de chegada da tal barca, no conto impossível de Gil Vicente…

Almoçámos no Mionga, e fomos mimados com as iguarias da terra, num sem fim de misturas exóticas de frutos do mar com frutos da terra, bolinhos de arroz, peixe frito com pepino, folha-mosquito, sopa de micocó com matabala, peixe-andala, peixe-azeite… sempre com o mar em pano de fundo, banda sonora marítima a completar a cena.

E o rol de praias recomeça: Micondó, Piscina, Jalé, Cabana… pedaços de céu esquecidos no meio do Atlântico.

Pernoitámos no Praia Inhame Eco Lodge, onde os jantares são servidos mesmo em cima da areia.

Foram momentos de sonho partilhados com quem nos quer bem.

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Para brindarmos a dias inesquecíveis, decidimos experimentar o menu de degustação da Roça São João dos Angolares, do chefe João Carlos Silva, um menu que é uma pura provocação ao palato, cozinha de fusão de qualidade internacional, em homenagem aos costumes locais.

É impossível sair de lá indiferente, não há quem não queira regressar. Um país com alma verde, que conseguiu abrandar o tempo, e que brandamente nos recorda do que verdadeiramente importa para sermos felizes.

São Tomé…leve – leve-me.

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P.S. Na próxima viagem, o Príncipe.

*Crónica originalmente publicada na Edição 55 da Espiral do Tempo.

** Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal.

«Doce, doce

Leve, leve»

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 Doces palavras de ordem emitidas pelas crianças que levitam à beira da estrada e que definem, na verdade, a essência de um país.

É fácil percebê-la ao primeiro olhar, pela beleza simples, embora exuberante, da paisagem e pelo sorriso genuíno de quem passa.

E porque estamos num rodopio de sentidos, e porque o cacau é a imagem de marca da ilha, que já foi a principal produtora mundial de cacau, é obrigatória uma visita à fábrica de chocolates Claudio Corallo, com direito a visita guiada. Sair-se-á de lá ainda mais fascinado com a arte do fabrico do chocolate. E com o chocolate em si, deliciosamente exótico.

Enquanto se tem saúde, não se rejeita nada de bom

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Apetece, ainda mais, fazer uma incursão pelas inúmeras antigas roças de café e cacau, cerca de 150 no total. Roça Agostinho Neto, Água-Izé, Uba Budo, Bombaim, Amparo, entre muitas outras… um património arquitetónico inigualável, que poderá vir a ser um dos eixos estruturantes do futuro do turismo no país.

Ainda no centro da cidade, fizemos uma paragem no Pico Mocambo, para pôr a conversa em dia, com uma Rosema[1], antes de irmos jantar ao Centro Cultural Cacau, um projeto direcionado para a valorização dos recursos naturais e o resgate da cultura, história e tradição de São Tomé e Príncipe, e que alberga a bienal de artes do país.

Fazemo-nos à estrada.

Intercaladas pela densa vegetação, surgem vilas com casas típicas da ilha, palafitas com alpendres de madeira e um enganador aspeto delicado, porque estoicamente se mantêm em pé, adornadas com panos coloridos a brincar de portas e janelas.

A toda à volta, brotando do chão, suspensas nas árvores, em bancadas à beira- estrada, um manancial de plantas, frutas e legumes…. fruta-pão, pitaia, matabala, jacas, mangas, papaia, carambola, batata-doce, inhame, cocos e bananas vão adornando a paisagem…

Continua…

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[1] Cerveja local

*Crónica originalmente publicada na Edição 55 da Espiral do Tempo.

** Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal.

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Acabei de chegar do paraíso.

A menos de duas horas de avião de Luanda, há uma espécie de joia verde, plantada no Oceano Atlântico, romanticamente posicionada entre os hemisférios norte e sul, sobre a linha imaginária do Equador.

Ainda no avião, à chegada, a quilómetros de altitude, brota de repente esta ilha que, de aspeto um tanto ‘brocular’ — porque é verde, saudável e com uma vegetação muito densa —, nos enche de espanto.

Talvez a humidade do ar, as temperaturas altas e chuvas regulares possam, à distância, ser prenúncio de desconforto… mas, na verdade, a ilha cheira a casa. Seduz-nos logo à partida. Como uma mulher que, tão bela, ainda assim cultiva a graça natural sem mais adereços, e que embala, maternal, no seu regaço.

Não me parece exagerado afirmar que, de entre todos os locais que visitei até hoje, este é o que tem a paisagem que mais se aproxima da conceção de paraíso que a minha imaginação consegue inventar. Porque todo o cenário se encaixa perfeitamente numa espécie de ‘auto da barca do paraíso’, onde as almas desassossegadas seriam levadas para a Luz. Um paraíso de cacau e água de coco, águas cristalinas, um pedaço de chão abençoado pela mãe natureza.

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Talvez sejam influências do Equador, de Miguel Sousa Tavares. Talvez seja eu a imprimir romantismo a toda a paisagem que me impressiona.

Estava ela à minha espera, à saída do aeroporto. De sorriso aberto. Expetável. Tantas vidas por nós partilhadas, tantos momentos inconfessáveis, por outras paragens, e a certeza de que um olhar apenas contará sempre uma história de vida.

É bom perceber que a distância é uma mera especulação geográfica que nada tem a ver connosco… e que não há nada como chegar a casa sem estar de facto em casa, porque o conceito de casa cabe em todos os lugares onde os nossos afetos estão.

Temos os sentidos delicadamente em alerta.

O tempo parece abrandar (parou, algures), e o stress é já um conceito vago e distante. Nem o conseguimos ouvir. Há murmúrios de água por todo o lado, e mais um motivo para deslumbramentos em uníssono, a cada metro percorrido.

A cidade, como outras com uma longínqua ligação entre dois povos, tem uma herança colonial profunda, visível nos edifícios que ainda se erguem, saudosamente majestosos, no português musicado que se ouve falar, em elementos que demonstram a simbiose, polida pelos anos, de duas culturas que se interligaram.

Continua…

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*Crónica originalmente publicada na Edição 55 da Espiral do Tempo.

** Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal.

 

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A cerca de 1h40 de avião de Luanda esconde-se, à vista de toda a gente, o paraíso.
Dizer que este é um dos meus destinos favoritos de férias é reduzir o meu amor por esta ilha a quase nada…
…mais certo será revelar que, por causa dela, percebi que tenho “alma de ilhéu”.
É nela sentir-me em casa, por “casa” ser todos os lugares onde os nossos afectos estão.
“Leve, Leve-me”
Crónica de Alexandra Gonçalves para a edição de verão da Espiral do Tempo, em que os leitores são levados a mergulhos em São Tomé & Príncipe.
Bom proveito, e até já!

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