Leve, leve-me // 2

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Acabei de chegar do paraíso.

A menos de duas horas de avião de Luanda, há uma espécie de joia verde, plantada no Oceano Atlântico, romanticamente posicionada entre os hemisférios norte e sul, sobre a linha imaginária do Equador.

Ainda no avião, à chegada, a quilómetros de altitude, brota de repente esta ilha que, de aspeto um tanto ‘brocular’ — porque é verde, saudável e com uma vegetação muito densa —, nos enche de espanto.

Talvez a humidade do ar, as temperaturas altas e chuvas regulares possam, à distância, ser prenúncio de desconforto… mas, na verdade, a ilha cheira a casa. Seduz-nos logo à partida. Como uma mulher que, tão bela, ainda assim cultiva a graça natural sem mais adereços, e que embala, maternal, no seu regaço.

Não me parece exagerado afirmar que, de entre todos os locais que visitei até hoje, este é o que tem a paisagem que mais se aproxima da conceção de paraíso que a minha imaginação consegue inventar. Porque todo o cenário se encaixa perfeitamente numa espécie de ‘auto da barca do paraíso’, onde as almas desassossegadas seriam levadas para a Luz. Um paraíso de cacau e água de coco, águas cristalinas, um pedaço de chão abençoado pela mãe natureza.

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Talvez sejam influências do Equador, de Miguel Sousa Tavares. Talvez seja eu a imprimir romantismo a toda a paisagem que me impressiona.

Estava ela à minha espera, à saída do aeroporto. De sorriso aberto. Expetável. Tantas vidas por nós partilhadas, tantos momentos inconfessáveis, por outras paragens, e a certeza de que um olhar apenas contará sempre uma história de vida.

É bom perceber que a distância é uma mera especulação geográfica que nada tem a ver connosco… e que não há nada como chegar a casa sem estar de facto em casa, porque o conceito de casa cabe em todos os lugares onde os nossos afetos estão.

Temos os sentidos delicadamente em alerta.

O tempo parece abrandar (parou, algures), e o stress é já um conceito vago e distante. Nem o conseguimos ouvir. Há murmúrios de água por todo o lado, e mais um motivo para deslumbramentos em uníssono, a cada metro percorrido.

A cidade, como outras com uma longínqua ligação entre dois povos, tem uma herança colonial profunda, visível nos edifícios que ainda se erguem, saudosamente majestosos, no português musicado que se ouve falar, em elementos que demonstram a simbiose, polida pelos anos, de duas culturas que se interligaram.

Continua…

assinatura

*Crónica originalmente publicada na Edição 55 da Espiral do Tempo.

** Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal.

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