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Partimos para Florença.

Uma mudança abrupta de cenário e de indumentária, mas um deslumbramento igualmente grande. Uma cidade cujo centro é perfeitamente percorrível a pé, em que as maravilhas históricas se sucedem, à distância de alguns metros apenas.

Os edifícios respiram história e cultura, e temos a certeza de que, há 500 anos, a aura da cidade seria bastante semelhante.

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O Duomo deixa-nos literalmente de pescoço torto ao tentarmos abranger com o olhar toda a sua magnitude, e é de facto um prazer fazê-lo, por dentro e por fora.

A não perder, a Ponte Vecchia, a Or San Michelle, o incontornável Palazzo Pitti, a Galeria Uffizi (e as imperdíveis obras de Botticelli), a Piazzale Michelangelo e o Forte Belvedere, para uma vista privilegiada sobre a cidade…e tanto, tanto mais, que o melhor será partir à descoberta, de preferência com um gelato artigianali em punho. Foi assim que descobrimos a tão pequenina quanto inesquecível Piazza Della Passera.

Para o típico aperitivo as nossas preferências foram o terraço do Hotel Excelsior (a vista sobre a cidade “fala-nos”) e o do Hotel Continental, o Santo Bevitore e a The Library, no borgo San Frediano.

A cidade também é profícua em restaurantes gastronomicamente elevados, tal como o Dà Sostanza, onde se deverá pedir ” bistecca e tortino di carciofi”. Supostamente o melhor bife da cidade.

A Toscana tinha muito mais para oferecer – San Gimignano, Siena, Chianti – mas, afinal, mais mergulhos esperavam por nós em Cinque Terre.

Cinque Terre, na Riviera Italiana, região da Ligúria, compreende cinco vilas: Monterosso al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore.

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As suas colinas verdejantes à beira mar compõem o Parque Nacional das Cinque Terre, e são parte do Património Mundial da Unesco.

Têm um aspecto pitoresco, com casinhas centenárias muito coloridas, e é possível visitá-las a todas de barco, comboio…e para os mais aventureiros….a pé!

Área turística por excelência, a melhor opção será ficar hospedado em Monterrosso e de lá conhecer as outras vilas. In bocca al lupo!

A Itália a superar todas as nossas expectativas.

E pomo-nos mais uma vez na estrada, as paisagens que nos rodeiam sucessivamente a mudar, e é hora do reencontro com os amigos e de subir bem para Norte.

Paragem rápida em Milão – o Duomo e a Fundação Prada a não perder – e sem demoras, ainda mais a Norte, para Bormio, dizemos adeus ao Lago Di Como e vamos deslumbrar-nos com os montes verdes dos Alpes Italianos.

Italia Meravigliosa!

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Tome Nota

Como ir

De Luanda poderá voar com TAAG até Lisboa (preços a partir dos 170 mil Akz) e daí seguir num voo directo para Roma (existem várias companhias aéreas a fazer esta ligação com preços a partir dos 100 euros). Já em Itália, as viagens podem ser feitas de comboio, de carro e de barco.

Onde ficar

São inúmeros os hotéis que existem em todas as cidade de Itália e com os mais variados preços. Ainda assim, e em particular, sugerimos o Hotel Le Sirenuse, em Positano, na Costa Amalfitana.

Onde comer

Não deixe de provar a pizza Marguerita na L’Antica Pizzeria da Michele, em Nápoles; e o “bisteca” e tortino di carciofi no Trattoria Sostanza, que dizem ser o melhor bife da cidade de Florença. E, claro, o gelato artigianale (gelado artesanal), um dos ícones gastronómicos de Itália.

Cuidados a ter

Itália é muito visitada por turistas durante o Verão, por isso faça as suas reservas com bastante antecedência.

Imperdível

Capri! É mesmo uma pérola do Mediterrâneo.

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*Artigo originalmente publicado na Porta de Embarque da revista Rotas & Sabores.

 

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O semba é nossa alegria

O semba é a nossa bandeira

É esperança é amor

 

Paulo Flores, in «Poema do Semba»

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Guitarra e voz, pela madrugada fora. Tenho uma relação quase visceral com a música. Uma voz paciente, apaziguadora. A voz do meu pai.

Talvez o primeiro som de que tenha memória.

O choro insistente de uma criança a dar o mote para esta forçada tertúlia familiar.

Um amor incondicional pela música a formar-se desde esse momento.

Entendo a música como o som dos nossos sentimentos.

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Mais de 30 anos depois, guitarra e outra voz, numa sala escura, em desejada tertúlia musical.

A respiração em suspenso, à espera do acorde seguinte, a alma em êxtase, um sorriso indelével nos lábios, a música a ocupar o seu lugar. Lá em cima, no palco.

Sou de um país que tem um sentimento de ligação inexorável com a música.

Esta é a espinha dorsal da nossa cultura. A forma de arte que melhor entendemos e melhor nos entende. Música é suor e é gente, é arte e nunca mente.

O som começa cedo. Talvez não termine nunca.

O quotidiano tem banda sonora, que percorre as veias da cidade e se entranha no grito das vendedoras de peixe, logo pela manhã, no arrastar de chinelos de quem acorda cedo, soando a dikanza [1], no primeiro balde de água atirado para o quintal, no chamamento insistente dos candongueiros, nas crianças que correm para a escola, nas buzinas dos carros, nas gruas dos estaleiros de obras, nas rádios que tocam as músicas de hoje e as de sempre, nas gargalhadas em uníssono em dias de sempre — verão, nas ondas do mar, nas noites em que não mexe uma folha e os corpos, transpirados, se envolvem num longo abraço dançado, e o ritmo marca o compasso dos corações.

Parece-me mesmo que a música tem sabor…

O mufete cai bem com a kizomba, o funge é ‘ritmado’ ao som do batuque, as novas sonoridades, ecléticas, afromundiais, condizem com cozinha de fusão…

Luanda é o berço de estilos musicais como a kazukuta e o semba [2].

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Na ilha de Luanda, nasce a rebita — terão as bessanganas[3], em adoração a Kianda[4], gerado a rebita? — acompanhando a intensidade das calemas[5] e as redes dos pescadores.

O semba, a nossa bandeira, que partilha raízes com o samba[6] — histórias entrelaçadas de duas culturas que se influenciam — é também o predecessor da kizomba e do kuduro.

Música urbana que cresce, ramifica, expande e se reinventa com as cidades.

Afro-house, afro-jazz, house apenas, jazz apenas, melodia com identidade, sem tempo nem espaço, fusão entre o africanismo e o mundo, música contemporânea apenas, sons que se misturam e interligam, que ultrapassam fronteiras e revelam novos mundos.

Percorri o país, procurando pontos de encontro, uma explicação para questões intemporais pendentes, origens culturais, antagonismos pendurados e, sem o ter desejado, encontrei um fio de ligação entre o Norte e o Sul: a música.

 

Cabinda.

Norte. História, mistério, lendas, tradição, Mayombe.

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À procura da nossa cultura, encontrei gigantes dançantes em vestes imponentes e rostos ocultos por máscaras artesanais.

Os Bakama, um dos mais notáveis símbolos da cultura Cabinda, são uma instituição secreta, excecional, uma espécie de religião tradicional, cujo centro e principais manifestações ocorrem no Morro do Tchizo.

Imbuídos da missão de baluarte dos princípios e da moral, efetuam exibições em cerimónias relevantes na vida da comunidade, de que a música e a dança fazem parte integrante.

Com regras muito próprias, e um secretismo imenso relativamente à identidade dos integrantes do grupo, cada um dos membros tem um nome, uma posição e um significado específicos, todos ligados à exaltação de virtudes, princípios morais, e ao poder dos espíritos da terra.

É preciso uma autorização especial do líder do grupo para a realização da cerimónia, e um acordo relativamente às oferendas, que são minuciosamente selecionadas.

Dançam como quem ora, folhas secas de bananeira que adornam a indumentária ao vento, máscaras expressivas que obrigam à adivinhação, transformando-os em quase deuses, os cânticos batucados a elevar a cerimónia, a conferir leveza aos movimentos, a fazer-nos acreditar.

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Uma autêntica oração dançante.

Um ritual único, irrepetível, de origem desconhecida, paragem obrigatória no tempo, nunca mais de lá consegui sair.

 

Namibe.

Sul. Deserto, Iona, tradição, nómadas, Himbas.

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Percorremos o Parque do Iona em picada incerta durante cerca de sete horas, olhos inquietos entre o relógio, os animais que galopavam ao nosso lado, a vegetação, ora escassa, ora surpreendente, paisagens de vários tons, de cores inimagináveis por detrás de cada monte.

O coração a bater meio sem ritmo, descompassado, ansioso por tudo o que não podíamos apreciar com tranquilidade, porque tínhamos encontro marcado, à hora dourada, com eles: os Himbas.

As mulheres cobertas com otjize[7], tons de pele ocre, perfumadas, peitos orgulhosamente exibidos sem nota de malícia, pulseiras exuberantes nos pés e nas mãos, as cabeças ricamente adornadas, um ideal de beleza totalmente diferente do convencional. Ainda assim, e talvez por isso mesmo, belíssimo.

Olhavam-nos com curiosidade.

Não sabíamos bem qual era o nosso papel ali, a curiosidade e o fascínio a toldar-nos a mente.

Decidi fazer parte da tribo, misturar-me, fundir-me, sair de uma zona de conforto pouco confortável e deixar de observar de fora para dentro.

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O ritual de transformação começou pelo exterior, pela renegação das minhas roupas ocidentais e pela unção da minha pele com o otjize. Fui recebida e acarinhada pelas mulheres da tribo como se fizesse parte dela, fui adornada pelos seus adornos, e descobri que a linguagem da música é a melhor forma de comunicação.

Em roda com a tribo, sem instrumentos, apenas com o ritmo do bater das mãos, pés, e sons feitos com a boca, foi criada música naquele momento de comunhão, de transe coletivo, em que perdi a noção do tempo, me perdi no tempo, num tempo sem fim.

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Entre este Norte e Sul, outras sonoridades se encontram.

Voltamos aos sons do quotidiano. Esperamos por novas melodias.

Mesclamos tradição e modernidade, traçamos percursos musicais até que o mundo faça sentido.

Nela, na música, se encerra a nossa alma.

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[1] Reco–reco.

[2] Outros estilos e subgéneros não constam injustamente desta pequena lista.

[3] Mulher luandense, da Ilha de Luanda, que se veste de forma tradicional, com panos.

[4] Sereias, ‘espíritos das águas’ e uma das entidades reguladoras do mar, dos lagos, dos rios, dos peixes, das marés e da pesca.

[5] Ondas gigantes.

[6] A palavra samba tem origem no semba e significa ‘umbigada’.

[7] Mistura de manteiga, feita de leite de vaca coalhado e pedra ocre triturada, que confere à pele um tom avermelhado, e que serve provavelmente como proteção do sol e vento. Hidrata a pele em profundidade e é um elemento de atração do sexo masculino.

NB. Texto publicado na Ed. 53 – Dez. 2015 / Jan. 2016 da Revista Espiral do Tempo

Fotografias de Sérgio Afonso e Alexandra Gonçalves, para a The Art Affair e a The Takes

Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2015 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

A New York City subway train holds 1,200 people. This blog was viewed about 6,900 times in 2015. If it were a NYC subway train, it would take about 6 trips to carry that many people.

Click here to see the complete report.

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Considerado o Umbigo do Mundo pelos Incas, por ser o centro do seu império.

Uma civilização que existiu de 1100 dc a1532, tão brilhante quanto destemida, na verdade uma mescla de todas as civilizações que a antecederam.

Tem 500.000 pessoas e situa-se a 3400 mt de altura em relação ao nível do mar.

Fizemos um switch completo em relação a Lima…em termos de altitude, clima (aqui muito mais instável) e paisagem…muito verde,montanhosa, um cenário idílico carregado de cultura que nos fez literalmente viajar no tempo.

São inúmeras as recomendações à chegada…descanso, refeições ligeiras (à base de sopa de quinoa) e… chá de coca. Muito chá de coca.

E começa o périplo pelos monumentos Incas, estoicamente em pé até aos dias de hoje, devido à engenharia Inca e à sua reverência e respeito pela Pachamama (Terra Mãe), bem como ao conhecimento de todos os elementos que a compõem, que os levaram a construir paredes robustas ligeiramente inclinadas, em trapézio, anti-sísmicas, que não cedem ao passar do tempo.

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Qurikancha, o templo do sol do Deus Inca Wiracocha, foi o primeiro monumento a ser visitado, seguido da Catedral de Qozco, de 1600 dc, com o seu Taitacha de Los Tremboles.

Por todo o lado verdadeiras maravilhas construídas pelo homem: Saqseguaman (centro administrativo e religioso), Ollantaytambo, o mercado de Pisaq e o delicioso pão cusqueño, a prata local e os tecidos de lã de Alpaca… e ainda os plácidos Lama, os passeios aventura pela natureza (trekking, canoagem, alpinismo, equitação) e uma beleza natural incomparável e diversa são ingredientes que fazem com que este seja um destino acima da média…

Três horas de comboio separavam-nos de Águas Calientes, a pequena vila próxima de Machu Picchu. Era o nosso destino final, aquele por que aguardamos durante toda a viagem.

Machu Picchu (montanha antiga) – conhecido como o El Dorado – foi cientificamente descoberto em 1911 pelo americano Hiram Bingham.

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O santuário, que albergava cerca de 500 pessoas (as consideradas mais inteligentes), mantém a forma original, na sua maioria, não tendo sido conspurcado durante a invasão espanhola, por desconhecerem a sua existência.

É um dos locais mais visitados do Mundo (recebe até 5.000 pessoas por dia nos meses de maior afluência) e era considerado pelos Incas um lugar sagrado, escolhido meticulosamente pela sua localização privilegiada, excelente para a observação astronômica, para além de ter uma energia peculiar, que sentimos pairar no ar.

De regresso a Qozco, já com uma ponta de nostalgia e um certo clima de despedida a querer instalar-se, o Restaurante escolhido foi o Inka, onde tive uma das melhores experiências gastronómicas enquanto no Perú.

Última noite em Lima. No dia seguinte voltaríamos a casa. Já não éramos os mesmos. “La Dama Juana”, restaurante tradicional com show folclórico, fez-nos bailar e no Ayahuasca Restobar, um dos dez melhores bares do Mundo, tornámos a brindar, desta vez, pelo retorno a este país que nos proporcionou de facto uma experiência mágica.

Valeu a pena mergulhar nesta cultura milenar que nos fez ganhar tanto.

Achava eu que o “tema” Perú ficaria encerrado nesta viagem.

Enganei-me redondamente. Ficou tanto por ver.

Não pudemos visitar o Lago Titicaca, Arequipa, a floresta da Amazónia nem vislumbrar as ondas esquerdas mais longas do Mundo, em Chicama.

Por isso, teremos de voltar.

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Sulpaiqui, Perú.

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*Texto publicado na Revista Rotas & Sabores, 2015.

 

 

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Dos 30 milhões de Peruanos, 11 milhões vivem em Lima. A cidade tem 43 distritos, muitos diferentes entre si. A bonita Miraflores sem dúvida que não nos ficou indiferente.

Ficámos hospedados no simpático hotel Dazzler, em plena Miraflores, que se revelou a base perfeita para os restantes pontos turísticos da cidade.

Uma chegada brindada com Cerveza Cusqueña, com vista para a praia. Sabia a férias.

E eis que, logo na primeira noite, nos é apresentada a internacionalmente afamada cozinha Peruana. O “Señorio de Sulco”, no Malecon de Miraflores, foi o ponto de partida para esta viagem dos sentidos, em que o paladar foi claramente o mais privilegiado. Iniciei a noite com um pisco sauer de maracujá, o meu favorito.

Desde que o chef Gastón Acurio, considerado o Embaixador da cozinha Peruana, elevou os ingredientes usados tradicionalmente no Perú, até então considerados demasiado humildes, ao estatuto de cozinha gourmet, que todo um movimento de orgulho nacional ligado à gastronomia (mas não só) se gerou, dando origem a uma das cozinhas mais conceituadas do Mundo.

Dos 400 pratos típicos existentes no Perú, que se podem experimentar no Festival gastronómico anual “Mistura”, o meu favorito é, sem dúvida, o delicado Ceviche, que me encantou tanto quanto a melhor sandes de Leitão que já experimentei na vida, a da sandwicheria criolla “La lucha”.

Dia de sol em Lima.

Esta cidade sísmica tem duas placas tectónicas, facto que influenciou a arquitectura local, em geral marcada por edifícios baixos.

Se a periferia lembra os arredores de São Paulo, o centro histórico tem o charme da Espanha colonial.

O centro de Lima, também considerado património mundial, é feito de história.

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E também de gentes. Rostos que denunciam misturas de etnias várias, longos cabelos lisos cor de azeviche, largos sorrisos em rostos de tez morena e uma simpatia inestimável.

É assim que recordo os Peruanos.

Existem mais de 300 huacas em Lima, da época pré Inca, com cerca de 5000 anos de existência. Uma espécie de pirâmide (sólida, sem galerias) usada antigamente como local de adoração aos Deuses.

O seu valor enquanto património histórico é relativamente recente – há ainda quem se recorde de as ter usado como local de brincadeiras durante a infância – mas são agora protegidas como património cultural da Humanidade, o que não impede os Peruanos de tirar o melhor proveito da sua localização…um dos bares / restaurantes mais bonitos (e mágicos!) que conheci fica na Huaca Puclliana, que recomendo imensamente.

O Distrito de San Isidro, elegante centro financeiro de Lima, também merece um passeio, bem como o Parque de La Reserva, um circuito mágico de fontes luminosas (com o jorro mais alto do mundo – 80 mt de altura) com 8 hectares, projectado pelo arquitecto francês Claude Sahut e que contém imensas esculturas de artistas peruanos.

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Chegados a Casa da Literatura, sita na antiga Estación de Desamparados, sorrio ao relembrar o livro autobiográfico “A Tia Júlia e o Escrevedor”, de Vargas Llosa, e por pensar que tanto daquela paisagem inspirou os seus textos.

Passámos pelo Parque de La Exposition, pelo Museu de Arte de Lima, pelo Palácio da Justiça e Palácio Francês, o grande Hotel Bolívar prendeu a nossa atenção, bem como o teatro Colón – o primeiro teatro de Lima – e arrepiámo-nos nas catacumbas da Catedral de San Francisco, com milhares de ossos humanos para “visitar”.

Descobrimos inclusive inúmeras referências a Maria Angola…uma escrava de Angola que se casou com um espanhol, após ser liberta, e herdou uma grande herança. A história de um país a cruzar-se com a de outro. Por isso gosto tanto de viajar.

A Plaza Mayor requer atenção redobrada por estar rodeada de edifícios lindíssimos, mas também porque possui uma fonte que nada teria de extraordinário, não fosse pelo facto de jorrar aguardente de pisco, ao invés de água, durante 3 horas, no último dia de Julho de cada ano. Se até agora não via motivos para visitar Lima, cá está mais um incentivo!

Nenhuma visita cultural a Lima pode estar terminada sem passar pelo impressionante Museu do Larco (com um restaurante imperdível), um museu privado que guarda os tesouros do antigo Perú, e que é a porta de entrada para a Cultura Inca, mote perfeito para o nosso destino seguinte: Qozco.

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*Texto publicado na Revista Rotas & Sabores, 2015.

The Namib Desert’s main characteristic is its inability to leave anyone indifferent.

I can’t say this any other way.

The fascination seems to start in the imagination of those who wish to know it.

At least, that is how it happened.

As soon as we arrived and before we entered the desert, we wanted to explore the town of Namibe.

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Peaceful, by the sea, it is difficult to believe that it is surrounded only by desert and sea. It preserves some imposing colonial buildings, with a highlight on the vintage Cine-Estúdio, an architectural work signed by Botelho de Vasconcelos, a futuristic building never completed, possibly from the 1960s, whose first impression reminds one of Oscar Niemeyer. Creative times.

We wanted to try right away, on the spot, the tasty crab from Namibe.

It tasted like the sea. It had the taste of the desired arrivals. Finally.

The food is inexorably linked to sensations that last from wherever we have been happy.

Namibe, whose name has its origins in the local-language word namib, means «vast place». The desert is indeed a gigantic 80,900 km2, extending for 1600 km along the Atlantic coast of southern Angola down through southern Namibia.

We entered the desert late at night, unable to rely on our sight. We used our hearing because we heard the beat of the waves, and our sense of smell because we could smell the sea, and our imagination, irrigated with adrenaline, took us beyond the next dune.

The lack of sight heightens the imagination, and the desert was that which imagination dictated.

We arrived at Flamingo Lodge, where we would stay for a few days.

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Completely isolated, it has a ‘roots’ but comfortable environment that everywhere in the middle of the desert sought out by surfers, sports fishermen or merely desert lovers should have.

Here, we feel time slow down…

At sunrise, we have an invigorating breakfast, looking at the sea, with our adrenaline rising, as we just want to hit the road.

Will we see a wave that is 3 km long? And seals, dolphins and whales? Beaches with sand dyed purple by seaweed?

And this time (again), last night’s over-active imagination lives up to the reality.

The jeep drives along the shore, playing with the water, seagulls flying all around us, crying, as excited as we are, and I knew, there, at that exact moment, the taste of freedom.

We found the Vanesa Seafood wreck, stranded an immeasurable time ago, reminding us that all that desert had once been sea.

And the dunes…

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The dunes were everything we had been promised. Fine golden sand, undulating so perfectly that they seem to have been styled the night before by a patient stylist whose function was attributed to him centuries before.

I sigh.

How does so much nothing form an empire of sand, and allow unique landscapes, nothing equal to the earlier ones?

We became lost looking around, without being able to contain the astonishment and the smiles, dazzled by the sun shining on the sand and by the blue sky, clearer than anywhere else.

The Canyon seemed to me the perfect place for an opera in the middle of the desert, but I don’t know if the sand mounds, like monumental rocks, would support the intensity of an aria.

The Arc, an oasis in the desert, contains three lakes, the middle one the most famous, the existence of naturally formed arcs in the sandstone giving this heavenly place its name.

At the time without water, completely dry, a plaque indicating that diving is prohibited challenges the limits of our imagination.

We have to return, we promise, to see the lake and, who knows, to make a prohibited dive on a night with a full moon.

Time does not slow down. It goes on, indifferent.

With a heart full of so much desert, I find myself back at my desk, looking through the window. Skin tanned from the desert sun, remnants of sand in my luggage, more tales to tell, I smile, happy in the knowledge that there is still much more to live, and to discover.

May there be time, always.

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assinatura*Text first published in Espiral do Tempo Magazine.

*Photography: Mauro Motty

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