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Economia & Mercado - Figura do Mês - AG 1A ENTREVISTA NA ECONOMIA & MERCADO

Qual a receita para ser uma boa advogada, principalmente na conjuntura em que nos encontramos?

Não há certamente uma resposta única a esta questão, dado não existir, infelizmente, uma fórmula única para o sucesso.

A meu ver, formação constante, o radar ligado à actualidade socioeconómica e às novidades legislativas, bem como imprescindíveis (muitas) horas de trabalho, poderão sem dúvida contribuir para o sucesso na advocacia. Ter um objectivo bem definido e seguir à risca o plano estipulado para o alcançar, em acréscimo, será a cereja no topo do bolo.

A seguinte máxima de Alvin Toffler poderá servir como guidance para quem queira vingar profissionalmente, ainda que em conjunturas mais difíceis, como a que atravessamos: “Ou se tem uma estratégia própria, ou então somos parte da estratégia de alguém”.

Que grandes desafios tem pela frente?

Em síntese, construir uma carreira sólida e com consciência social, em Angola.

Que obstáculo encontra para alcançar as metas que pretende alcançar?

Devido a exposição internacional que a profissão proporciona, temos necessariamente de trabalhar com o mesmo rigor, eficiência e expertise que os nossos congéneres noutras partes do Mundo, o que nem sempre se afigura fácil.

Vivemos num país ainda em fase de transição, que nos apresenta diariamente desafios – por vezes obstáculos – pessoais e profissionais, que mutuamente se influenciam.

Mas o povo angolano é estóico, tem uma história de superação e acredito que esta geração, mais formada e internacionalmente exposta, poderá fazer a diferença, a todos os níveis.

Como avalia o ensino da área jurídica em Angola, particularmente no ramo em que actua?

Estamos na incontornável fase da “quantidade”…existem inúmeras Universidades a leccionar o curso de Direito, com níveis de qualidade diferentes.

Há duas ou três que claramente se destacam, sendo que o esforço individual de cada aluno poderá suplantar as eventuais deficiências do curso.

Os conteúdos curriculares deverão, no entanto, ser futuramente ajustados, de forma a abranger matérias que tradicionalmente não fazem parte do leque de cadeiras obrigatórias, tais como a Arbitragem (método alternativo aos tribunais judiciais para a resolução de litígios) e Direito do Petróleo e Gás, apenas para citar alguns exemplos.

Alexandra Gonçalves Data:11 de Abril 2016 foto:Carlos Aguiar

Alexandra Gonçalves
Data:11 de Abril 2016
foto:Carlos Aguiar

Qual é sua opinião face à actual situação económica do país?

Vivemos tempos de incerteza que se poderão transformar, tomadas as decisões correctas, em tempos interessantes.

A queda abrupta do preço do barril de petróleo teve efeitos imediatos sobre as receitas da economia nacional, ancorada essencialmente na produção petrolífera.

A quebra da dinâmica de crescimento na África Subsariana afecta, igualmente, a capacidade de crescimento económico de Angola. Teremos menos exportações, menos investimento público e, expectavelmente, menos investimento privado (nacional e estrangeiro).

Temos, por isso, necessariamente de entrar num novo ciclo económico de estabilidade não dependente do petróleo.

Neste clima de “ausência de fartura”, é urgente a gestão eficiente de todos os players do mercado, em prol da diminuição do despesismo, da substituição do petróleo como fonte principal de receita, do aumento da produção interna e das exportações.

No entanto, essa urgente reviravolta só poderá ser possível com a formação e capacitação dos quadros nacionais, do apoio ao empreendedorismo nacional e aos novos empreendedores, e de um investimento considerável em áreas de futuro, tais como a agricultura – há neste momento cerca de 20.000 cooperativas agro-pecuárias registadas no país – e o turismo interno – o sector da hotelaria e turismo criou, nos últimos anos, 191 mil postos de trabalho directos.

Estes são números animadores, embora insuficientes.

Que aspectos distinguem o mercado angolano da realidade dos países com quem Angola tem parcerias económicas?

Angola tem parcerias económicas com países com realidades muito distintas.

Vivemos actualmente numa economia instável, a depreciação do Kwanza chegou a cerca de 40%, a inflação sobe há 14 meses consecutivos. Não estamos, por isso, a nível regional e internacional, numa situação muito favorável, quando comparados a países economicamente estáveis.

Não obstante as inúmeras riquezas naturais e de haver muitas áreas por desenvolver, certo é que o futuro do país – e do continente – depende das pessoas e não dos bens.

Há, portanto, que importar as boas práticas, vigentes em países mais desenvolvidos e adaptá-las a nossa realidade, de forma a diminuir as discrepâncias que possam afectar parcerias económicas saudáveis.

Como referi, tal só será possível, em primeira mão, com a aposta na capacitação do capital humano, de forma a garantir o desenvolvimento sustentável do país.

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Caros Amigos,

A Revista Espiral do Tempo quis saber como se movem, por Angola, os ponteiros do relógio.

Com enfoque na alta relojoaria, a revista faz a simbiose perfeita entre o fascínio pelo objecto – medidor do tempo – e a relevância que o tempo – etéreo, de valor inquantificável – tem no desenrolar dos nossos dias.

É com imenso orgulho que anuncio a parceria The Alexe Affair & Espiral do Tempo, a partir do número 51 da revista, mesmo a tempo do verão de 2015, pela qual me foi dada a oportunidade de traçar destinos cá por dentro.
“Tempo e viagens: Angola pelas palavras de Alexandra Gonçalves, a carismática autora do blogue The Alexe Affair com quem tivemos a honra de contar na nossa mais recente edição de verão. Texto completo e imagens de cortar a respiração para descobrir no nosso site”

Espiral do Tempo

Espiral do Tempo - Perfil AlexandraGoncalves

O tempo, de descanso e aventura, passado entre o Lubango e o Namibe ficou retratado no n.º 51, mas muito mais está por vir, ainda em 2015.

Na próxima edição, por que caminhos nos levarão as estradas de Angola?

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Ver Angola decidiu investigar os meus Affairs, e o resultado foi este!

A entrevista completa e galeria de fotos podem ser vistas aqui.

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The Alexe Affair: “A sílaba tónica tem sido a divulgação

da beleza natural e cultura angolanas”

 

Cresceu a conhecer cada recanto de Luanda… mas a vida quis que fizesse as malas e visse grandes avenidas e marginais. Viveu em Lisboa, Paris, Londres, Genebra e Frankfurt. Advogada de profissão e por vocação, confessa-se uma apaixonada pelas viagens, mas não esconde, no entanto, alguns affairs com a escrita, a música e a fotografia. O derradeiro chama-se The Alexe Affair.

*Affair é uma expressão que vem do francês affaire, e significa caso. É frequentemente usada em português para definir um caso amoroso ou romance escandaloso, que pode ser público ou mantido em segredo.

Muito mais que um simples blog de viagens, este “caso” de Alexandra Gonçalves é a possibilidade de descoberta de uma Angola de Norte a Sul, um país com uma “beleza inigualável” e uma panóplia de ofertas turísticas. Quem está do outro lado do ecrã agradece.

 

Alexandra, em primeiro lugar fale-nos um bocadinho sobre si. Onde nasceu, onde cresceu, como foi a sua infância?

 Nasci e cresci em Luanda, até aos 12 anos.

Vivi, nos primeiros anos, no Bairro dos Coqueiros e tenho vívidas memórias de “vivermos o bairro todo”.

Os miúdos do prédio, para se entreterem, brincavam pelo bairro, o que hoje em dia é impossível…pelo jardim dos Coqueiros, pela Fortaleza, pela Marginal e pelo Museu de Antropologia, que conhecíamos como a palma da nossa mão.

Aos 12 anos a família mudou-se para Lisboa, onde vivi durante 15 anos, e apesar de ter continuado ligada a Angola, e a visitar o país todos os anos, tive o privilégio de conseguir conhecer a fundo outra cultura, que se cruza com a cultura angolana em vários aspectos, e de ter mesclado vivências.

Tive uma infância extremamente feliz, rodeada de irmãos e muitos primos e amigos. São os privilégios das famílias grandes.

Lembro, com especial carinho, as férias grandes passadas em Cabinda, com os avôs…as mais especiais, as mais deliciosas.

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Diz que é advogada mas com “affairs noutras artes”. Porquê?

Sou advogada de profissão e por vocação. Venho de uma família de juristas, portanto diria, obviamente exagerando, que o Direito nos corre nas veias.

Temos, no entanto, uma faceta artística também muito acentuada. O meu pai, por exemplo, para além de Advogado, é músico, compositor e um amante das Artes Plásticas.

Julgo que tenho alma de artista, por sentir uma necessidade muito premente de me expressar pelas Artes, seja pela escrita, pela fotografia ou pela música.

São actividades que, longe de serem díspares, antes se complementam e me fazem sentir realizada.

E como é que surgiu o seu derradeiro “affair”, o The Alexe Affair?

O The Alexe Affair surgiu na sequência da “tal” necessidade de me expressar pelas Artes (no caso, pela escrita), aliada ao gosto inexorável pelas viagens.

É, essencialmente, um blog de viagens.

Adoro viajar e conhecer outras culturas. Ter amigos por todo o Mundo faz com que sintamos com que o Mundo seja (um pouco) a nossa casa.

Ter vivido em Paris, Londres, Genève e Frankfurt, para além de Luanda e Lisboa, sem dúvida que contribuiu para esse sentimento.

No entanto, é engraçado perceber que, nessas inúmeras viagens, retiro um prazer imenso da constatação de que somos, de facto, todos diferentes e todos iguais. As nossas similitudes encantam-me.

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O que é que pretende com este blog? Quem gostaria que lhe fizesse uma visita regularmente?

O blog foi inicialmente criado, como referi, para satisfazer a minha necessidade de me expressar pelas Artes.

Mas os projectos vão crescendo e se transformando, passando a ser um bocadinho de toda a gente que os aprecia.

Comecei por fazer narrativas de viagens para guardar memórias das minhas viagens pelo Mundo, e para as partilhar com os amigos.

Agora, especialmente com a mudança para Angola e por estar muito focada em palmilhar o meu país, a sílaba tónica tem sido de facto a divulgação da beleza natural e cultura angolanas.

Quem gostaria que me visitasse? Toda a gente, claro.

Especialmente aquelas pessoas que partilham o meu gosto pelas viagens, em geral, e em particular quem tenha curiosidade em conhecer melhor Angola.

Assume-se como uma “viajante incurável” e relata as descobertas no blog. Em Angola, costuma aconselhar os visitantes com locais para visitar, dormir, comer… Sente falta deste tipo de informação no nosso país?

Sinto falta de meios eficazes para veicular todo o tipo de informação.

A nível turístico, primordialmente, mas não só. Neste campo a informação é escassa, embora haja bons esforços nesse sentido.

Luanda, por exemplo, que tem já uma agenda cultural interessante, peca, no entanto, pelo facto de os produtores e promotores desses eventos não conseguirem, geralmente, de forma eficaz, chegar ao grande público.

Não falo de um concerto em grande escala, mas por exemplo, de uma vernissage

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Vê Angola como uma potência turística à escala africana?

Sem dúvida alguma.

A beleza natural do País é inigualável e muito variada, de Norte a Sul do País, o que poderá ser polo de atracção para uma variedade de turistas: backpackers em busca de ondas para surfar, os praticantes de Golfe, os que procuram sossego num Spa, rodeados pela natureza, os mais aventureiros que por estrada queiram conhecer o país de lés a lés…

As possibilidades são infinitas.

Vejo Angola como uma potência turística à escala mundial, se conseguirmos, nos próximos anos, encontrar um equilíbrio sustentável em termos de acessibilidade (financeira, por exemplo) e disponibilidade de serviços ligados ao Turismo, transversais a toda a sociedade, que passam pela hotelaria, restauração, transportes e serviços diversos, de criação de infra-estruturas capazes, de redes aéreas, ferroviárias, marítimas e terrestres.

É um sector que, para se poder desenvolver, implica que haja um desenvolvimento e organização do próprio país, em larga escala, e que claro, irá potenciar a criação de emprego para uma franja alargada da sociedade.

Claro que a hospitalidade e sorriso aberto dos angolanos fazem, por outro lado, toda a diferença, portanto eu diria que temos metade do caminho andado para que as pessoas se sintam bem-vindas.

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A produtora audiovisual The Art Affair é outro dos seus projectos. Pode falar-nos sobre ele?

A produtora The Art Affair é outro dos meus affairs. Foi criada em 2014, com o objectivo de produzir conteúdos ligados à Cultura, às Artes, à Natureza, ao desporto e Ambiente.

Estamos, desde o ano passado, em parceria com a portuguesa The Takes, a produzir aquele que será o primeiro filme documentário sobre Surf em Angola. O filme roda por toda a Costa Angolana, de Cabinda ao Cunene, e pretende mostrar a relação do nosso país com o surf, o potencial das nossas ondas para a prática do desporto, bem como a cultura e a beleza natural de Angola.

O projecto será lançado em Setembro deste ano.

A advocacia, as viagens, a moda, a arte. Existe uma panóplia de paixões que conduz a sua vida. Como é consegue conjugá-las?

Julgo que o segredo está na gestão do tempo, aspecto em que vou trabalhando ao longo da vida, no facto de adorar o que faço, e de me entregar apenas aos projectos a que me sinto emocionalmente ligada.

Muito bem disse Confúcio “Escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”.

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O que é que espera do futuro? Gostaria que os seus “affairs” fossem cada vez mais uma inspiração para os angolanos?

Se porventura o forem, isso deixar-me-ia, logicamente, muito feliz.

Costumo dizer que quem anda pelo Mundo acaba por ser um Embaixador do seu país. Tento, por isso, representá-lo o melhor que sei.

No meio de tantas dificuldades e “feridas da história” que temos ainda que ultrapassar, porque não realçarmos o que temos de melhor, para que sirva de inspiração para todos aqueles que cá estão, amam Angola e querem ver o país progredir?

Este é o lema por que me pauto.

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*Fotografias de Alexandra Gonçalves, Isaura Pinto e Bernardo Gramaxo.

 

Angola, Uma viagem, Três surfistas…

Um país por explorar, uma equipa persistente, ondas inacreditáveis e um Povo que acolhe, acarinha e integra.
O mote para o primeiro filme documental sobre Surf em Angola.

De uma conversa entre amigos, surgiu uma ideia.
Esta ideia rapidamente se tornou uma grande paixão.
De amor platónico a projecto estruturado, foi um passo.

É com muito orgulho que a The Art Affair e a The Takes foram à “descoberta” da essência deste país…e do Povo que lhe dá alma.

Acompanhados por todos aqueles que acreditaram na sua visão, mostrando serem eles os verdadeiros visionários.

Junte-se a esta aventura!

Três surfistas - médio

O site brasileiro #MídiaTrans, percursor do jornalismo transmídia participativo, tem como mote “Mundos Portáteis”.

Decidiu partir em busca dos “Nômades Modernos”, as pessoas que provam que é possível viajar, trabalhar e curtir a vida, tudo ao mesmo tempo.

Tive o enorme prazer de ter sido uma das entrevistadas nessa rubrica, e de ter sido incluída nesse honroso “clã”.

Para  aceder à reportagem no site, clique aqui.

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Alexe e suas paixões

 

por Marcos Reis

 

“A monotonia não faz parte do meu vocabulário”.

Quem fala é Alexandra Gonçalves, uma angolana de 31 anos de idade que possui uma sede inesgotável de descobrir o que está “do outro lado da porta”. Adepta de um estilo de vida bastante dinâmico, tem uma intensa vida familiar e social. É fácil compreender porque ela está sempre “a mil”, “mas, ainda assim, com um sorriso nos lábios”.

Nascida em Luanda, é uma viajante nata (realiza viagens a cada dois meses, pelo menos). A maior parte de suas andanças pelo mundo se deve ao trabalho, “mas há sempre um tempinho para descobrir algo novo, que faça com que eu regresse à casa com uma bagagem um pouco mais rica. Inclusive com o cartão da máquina fotográfica (ou o iPhone) cheio de fotos”, conta. “Haverá maior riqueza?”.

Alexandra decidiu seguir a tradição familiar. “Soube, desde muito nova, que o Direito e a Advocacia fariam parte do meu percurso profissional”, relata. Entretanto, também por influência da família, abriu as portas de sua vida para as artes.

“The Alexe Affair” (thealexeaffair.wordpress.com), um pequeno e interessante universo de histórias, viagens, fotografias, músicas e artes em geral, é o espaço onde ela dá vazão à escrita. O blog é uma janela que exibe a sensibilidade de Alexe (como prefere ser chamada) em relação a tudo aquilo que a move e inspira. Como o título da página já revela, são muitos os interesses e as paixões da angolana. Seu mais recente “affair” é uma Produtora Audiovisual chamada “The Art Affair”, criada no fim de 2013 em parceria com Bernardo e Margarida Gramaxo. Algumas das produções já realizadas pela equipe podem ser visualizadas em nossa seção de vídeos.

Alexe vive, atualmente, em sua cidade natal, mas já morou na Europa por 17 anos. Lisboa, Paris, Londres, Genebra e Frankfurt são algumas das cidades por onde ela passou. Ela conta que as experiências vividas em cada um dos lugares contribuíram para sua formação profissional e pessoal e “sempre foram muito interessantes pelo aspecto técnico, em primeiro lugar, e também pelo intercâmbio cultural”. A advogada comenta que sua nacionalidade sempre suscita algum interesse durante suas viagens. “Muito pouco [da cultura angolana] foi revelado ao estrangeiro, e quem anda pelo mundo acaba, inevitavelmente, por ser um porta-voz do país de onde vem”. Alexe assumiu a missão pessoal de desvendar e divulgar toda a beleza humana e natural de Angola, “ainda tão desconhecidas perante o resto do mundo”.

Embora tenha um local de trabalho fixo, Alexandra está sempre em movimento. “Os meandros da minha profissão e das áreas a que me dedico fazem com que tenha que me deslocar com frequência, o que para mim é uma grande vantagem”. Ela ressalta que gosta muito de viajar a trabalho, desbravar novos caminhos, analisar mapas antes desconhecidos e incluir novas pessoas em seu agregado pessoal. Tudo isso a faz sair de sua zona de conforto e estar constantemente atualizada, além de “ter um significado imenso e inquantificável, que faz com que nos posicionemos no mundo com um novo olhar”.

Alexe se considera uma cidadã do mundo, tendo em conta os países onde viveu, os que conheceu a trabalho e a lazer e, principalmente, as culturas que teve o prazer de conhecer e assimilar. “Há uma certa mestiçagem, que não tem nada a ver com a cor da pele, mas com as experiências vividas, que é muito marcante nas minhas ações e filosofia de vida”. Essa característica define, para ela, o que é ser, verdadeiramente, uma pessoa cosmopolita. Entretanto, para Alexe, o cosmopolitismo não deve ser percebido como uma ruptura com as origens. Segundo a angolana, as pessoas sempre precisam ter em mente quem são e de onde vêm, “porque o ponto de partida é necessariamente o que advém das nossas raízes”.

Alexe conta que se tornou, neste ano, a primeira angolana a participar do Dia Internacional da Arbitragem da International Bar Association (IBA), em Paris, juntamente a um colega. Ela sentiu que estava fazendo história, ainda que “a nível diminuto”.

Sim. Ela estava fazendo história, e o faz cotidianamente em seu universo particular e nos de seus leitores por meio de seu olhar sobre o mundo e sobre o país em que nasceu.

 

 

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The Alexe Affair

Desde que o The Alexe Affair entrou na minha vida, a percepção do “meu” mundo sofreu uma grande alteração. E as vivências pessoais passaram a ser, inevitavelmente, uma partilha de experiências.

On the road” passou a ter um novo significado, e com ilustração própria e parágrafos delineados, os pensamentos e sensações (posso chamar-lhes pensações?) trazidos à flor da pele durante o rotineiro trajecto até à esquina valem, percebo agora, tanto quanto uma longínqua viagem de avião para um qualquer destino paradisíaco.

Certo é que todas as partidas e chegadas carregam um significado imenso, com peso próprio, não necessariamente aquele que levamos na bagagem, mas o peso que acarreta conhecer novos mapas, novas pessoas, novas rotas e novos sabores.

Porque com elas, as tais partidas e chegadas, deixamos ou ganhamos sempre alguma coisa. De preferência, deixamos pré-conceitos e ganhamos novos olhares sobre o mundo…esse conceito etéreo, algo inatingível, que significa uma realidade diferente para cada viajante.

E com tantas partidas e chegadas, cheias de sentimentos confusos de perdas e ganhos, eu optei pela metamorfose…hoje sou (porque assim o quis) o sítio onde me encontro e as pessoas com quem estou…simbolizo os caminhos por onde passo, represento os hábitos, assimilo, cozinho em pote invisível, tento absorver tudo aquilo que caracteriza os locais do agora. Porque tenho uma sede inesgotável de descobrir o que está do outro lado da porta.

Descobri que não há nada como ouvir uma morna em Cabo verde, sermos donos do mundo em Nova Iorque, apaixonarmo-nos pelo Tango em Buenos Aires ou pisarmos a terra mística do Mayombe.

Nasci na exótica e húmida Luanda, num tempo que antecede o cosmopolitismo de agora, mas que guardava em si todas as heranças da história. Fui muito cedo para Lisboa, e sem perder a identidade, acumulei culturas. A minha escrita é, necessariamente, uma mestiçagem de vivências.

Com sede emocional em Luanda, e com toda a Angola para (e por) viver, percebi um País que se está a redescobrir (ainda mais do que a ser descoberto), com lugares, gastronomia, artes e sonoridades com traços antigos e novos, elementos identitários e hábitos cada vez mais diversificados.

Luanda é hoje uma cidade com uma movida ímpar, cosmopolita, jovem e vibrante, com características muito próprias mas aberta à mudança e às tendências mundiais, exímia representante da nova África que agora se apresenta ao mundo.

O que mudou, cá dentro? Mudou? Cresceu, metamorfoseou, borboletou?

Mudaram os tons de verde que consigo distinguir, desde que entrei no Mayombe, desde sempre Maravilha, cenário de guerra e de paz, e me senti, como Mukenga, filha de Cabinda, guerrilheira como tantos, cheia de mistérios por contar.

Afinaram-se as curvas na Serra da Leba, que insiste em marcar encontros sucessivos, num infindável namoro, com o deserto do Namibe. Aprofundaram- se os espantos na Tundavala, e percebi que o que precisava mesmo era de Pululukwa (descanso, em Umbundu) na natureza.

A Restinga do Lobito, tão bonita (assim a cantaram Yola Semedo e Paulo Flores) mostrou-me a nobreza de outros tempos, imponência arquitectónica, beira-mar azul, aura de Rainha.

Cresceu o gosto pela vida no mar. Valorizo, ainda mais agora, aquele primeiro mergulho que lava o corpo e a alma, em Cabo Ledo, retiro ainda em estado (quase) selvagem, cura para qualquer maleita, salvador da pátria. E antes disso, paisagens lunares de ver e querer ver mais, mangais no Rio Kwanza, a Costa infindável, quase virgem, com promessas de ondas vindas do lado do coração.

Venerei o final de tarde no Mussulo, bola de fogo a entrar no mar, o meu momento preferido do dia, porque ainda se vive o que foi e há já a promessa do que virá.

Vibrei com a gargalhada quente dos angolanos, aquela que resume o conceito de lar.

Por Angola, a intenção é de resgate dos valores da tradição e cultura, para que haja mais País. Para que possamos escrever a história, a partir de agora, com tinta colorida, como as usadas nas vestes dos bailarinos Tchokwe.

Cresci, por pensar e querer enveredar por novos caminhos e novas vontades, fiz malabarismos psicológicos que ainda não consegui perceber se me transportaram para um estádio diferente da minha evolução pessoal.

Hoje, sou um pouco mais de mim e agarro-me à beleza da jornada.

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*Texto publicado na Coluna Pessoal da Revista Rotas & Sabores, n.º 3, de Junho | Julho, onde a autora passará a assinar uma crónica, já a partir do próximo número.

A Revista Caras Angola teve a gentileza de fazer uma reportagem sobre o The Alexe Affair, na edição de 01 de Março de 2014.

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A ENTREVISTA

Criativa e bem sucedida, Alexandra do Nascimento Gonçalves é uma angolana com inúmeras facetas. Filha de Manuel e de Margarida Gonçalves, esta jovem de trinta e um anos de idade divide o seu tempo entre inúmeras actividades que considera serem as suas grandes paixões.

A advogada, especializada em Direito Comercial e Societário, actualmente integrante das Ordens de Advogados de Angola, Portugal e candidata a Ordem de Advogados de Inglaterra, tem também o projecto para criação de uma produtora audiovisual, a “The Art Affair”, com enfoque no potencial turístico, cultural e desportivo do nosso País.

Definindo-se como advogada de profissão, é devota e apaixonada pelas artes. Entre outras características, Alexandra Gonçalves diz-se uma “viajante incurável, aspirante a escritora e com um grande “fraco por fotografia”.

Dentro das suas actividades, reserva sempre um tempo para o ‘The Alexe Affair’, o blog onde descreve as suas viagens e interacções que vai criando com os sítios por onde passa.

 

Como é que se define?

Tenho sempre imensas dificuldades em definir-me, porque a visão que temos de nós próprios pode não ser a mais realista.Mas considero-me uma pessoa muito proactiva, extremamente curiosa, sempre com mil planos e com vontade de descobrir e concretizar coisas novas. Tenho dois lados bem vincados, o de advogada com características consideradas “mais sérias” já que a profissão requer um certo tipo de postura profissional, e o lado artístico que é, parece-me, muito evidente, apesar de eu não estar directamente ligada às artes. Mas tenho uma influência artística na família muito grande. O meu pai é advogado, mas também é músico, e é um apaixonado pelas artes plásticas, principalmente de artistas angolanos, e portanto eu cresci muito neste meio… No meio da música, dos quadros e das esculturas.

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Sente que a sua sensibilidade artística dá cor à advocacia?

O lado artístico acaba por dar um certo sabor a tudo, e será sem dúvida uma grande influência. Trabalhar rodeada de obras de arte certamente terá influência no resultado do meu trabalho e em tudo, na minha vida. Se sou poética? … bom, não sei…acho que vejo um bocadinho de beleza em tudo, e isso certamente trará pitadas de poesia ao meu dia a dia.

 

Considera-se uma pessoa singela?

Seria muita presunção dizer isso de mim mesma [risos]. Mas se não sou, gostaria de vir a ser um dia. De facto, acho que tenho a peculiaridade de agregar em mim muitos interesses. Tenho uma certa polivalência. Complemento-me fazendo uma pluralidade de coisas. Não me consigo resumir em uma coisa só.

 

É uma pessoa decidida?

Sim, muito. Muito determinada em atingir determinados objectivos.

 

O que é para si a família?

Tudo. Como se diz: “onde começa a vida e o amor nunca acaba”.Está sempre no coração.

 

Sabemos que o seu pai é uma grande influência para si. Que contributo tem a sua mãe no seu aprendizado?

A minha mãe é o meu ícone feminino. Ela tem uma personalidade muito peculiar. É uma mãe de quatro filhos que sempre teve uma carreira profissional brilhante. Julgo que aprendi com ela uma determinada postura de mulher. É o protótipo da mulher moderna e muito forte. Ela sempre cuidou da casa, da família, mas ao mesmo tempo nunca descurou a parte profissional e ensinou-nos que uma mulher tem de trabalhar, ter uma carreira, tem de tomar as suas decisões e ter independência financeira. Ensinou-nos principalmente que uma mulher deve ser independente emocionalmente. Portanto toda essa imagem de mulher forte vem dela, sem sombra de dúvida. É uma influência bastante significativa.

Não obstante, ela é também o elemento que nos traz “de volta à terra”. Personalidades demasiado poéticas precisam por vezes de wake up calls [risos].

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O seu coração esta actualmente ocupado?

Não. De momento estou solteira.

 

E como lida com o facto de estar solteira?

Super bem. Estou solteira há cerca de um ano, e na verdade julgo que tenho o condão de aproveitar tudo de bom que a vida tem para dar, em todos os momentos. Portanto, o facto de não estarmos emocionalmente ligados a alguem faz com que também tenhamos mais tempo para investir em nós mesmos, e isso acabou por ter um efeito bastante evidente no meu dia-a-dia. Tenho viajado muito, conhecido novas pessoas, voltei a ter aulas de canto e de piano, comecei a surfar, voltei a dedicar-me ao meu blog, e em termos profissionais tenho estado a investir imenso em áreas diferentes. Para além da advocacia, estou a candidatar-me para dar aulas na Universidade e para começar a escrever profissionalmente. Vou começar a ter aulas de equitação…Portanto…, é um mundo…

 

O seu dia tem quantas horas?

Eu acho que tem 48horas, mas não tem. Nunca páro. Jogo ténis as sete horas da manhã e depois vou trabalhar. À noite tenho sempre um programa. Acredito piamente que com uma boa gestão do tempo consigo fazer tudo. Não há lugar para o tédio e o aborrecimento na minha vida.

 

A sua vida social, os seus amigos, onde estão no meio de tanta coisa?

Os meus amigos estão sempre encaixados em tudo o que faço. Eu acho que consigo fazer alguns malabarismos interessantes. Tenho uma vida social intensa porque por natureza gosto muito de socializar, e acabo por ser muito eclética. Tanto me podem encontrar num cocktail, como a acampar em Cabo Ledo…

 

A que área da advocacia se dedica?

Eu trabalho essencialmente com Direito Societário. Gosto particularmente da área da Arbitragem (jurídica), ou seja, um meio alternativo para a resolução de conflitos.

O que é o “The Alexe Affair”?

É o meu blog, a minha paixão. Existe há dois anos, apesar de no ano passado ter estado muito parado, visto que por motivos pessoais e profissionais fiquei muito focada noutras coisas e acabei por pôr este meu lado um bocadinho de parte. Foi pena porque depois percebi que me fez imensa falta, visto sentir muita necessidade de me expressar pela escrita.

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A escrita é a forma de arte que lhe enche as medidas?

Adoro literatura, comecei a ler romances enormes desde muito nova. Talvez a leitura tenha levado à escrita. É a forma de arte com que eu mais me identifiquei até agora, porque talvez seja o que melhor sei fazer.

 

E como surgiu este blog?

Há já alguns anos que pensava em criar um blog e mostrar a quem quisesse ler aquilo que até à data estava confinado aos mais chegados. Mas depois havia também a insegurança de não perceber se valeria a pena, se suscitaria algum interesse, porque na verdade trata-se de uma análise muito subjectiva do que se passa nas minhas viagens e nas minhas vivências, em geral. E claro que precisaria de um fio condutor para não ficar perdida em mil pensamentos e depois acabar por não concretizar… Então pensei, se eu gosto muito de fotografar e tenho viajado tanto, porque não? Uma coisa levou à outra e surgiu a ideia de fazer narrativas de viagens com imensas fotografias, portanto o blog junta coisas que muito me agradam. E pronto, assim surgiu a ideia. Quanto ao nome, eu ia por um caminho completamente diferente e depois achei que ‘The Alexe Affair’ fazia sentido, porque gira tudo à volta do meu mundo.

 

Que relação tem com a moda?

Gosto de estar bem e de acompanhar as tendências. Ao longo dos anos eu aprendi a conhecer o meu corpo e o que me fica bem. Quase não experimento nada nas lojas porque sei de antemão o que vai resultar. Consigo logo perceber se determinado corte, padrão, cor e material me fica bem. Isso ajuda a estreitar esta dita relação com a moda, sem grandes stresses. Gosto especialmente de roupa muito feminina, uso imensas saias, vestidos, cores alegres, sedas, cetins, organzas…Tudo o que seja muito feminino, muito delicado, está na minha predilecção. Daí preferir os designers e as marcas que tenham essas características…Elie Saab, Miu Miu, Chanel, Erdem…

 

Considera-se uma “shopaholic”?

Eu já fui muito impulsiva a fazer compras. Estou muito mais moderada, muito mais consciente e agora opto por comprar peças boas, duradoras e que façam de facto a diferença no meu guarda roupa.

 

Mas não é uma coisa em que pense muito?

Nem por isso, eu tendo muito pela simplicidade. Quase não uso maquilhagem, por exemplo, gosto de andar quase sempre ao natural, excepto em determinadas ocasiões. Acredito muito na “beleza por via da saúde”. Valorizo muito mais uma pele bem cuidada e um aspecto saudável, que são os melhores “acessórios” que uma mulher pode apresentar. Gosto de conjugar peças, penso no que vou vestir, mas não me tira o sono. Julgo que a idade e a experiência acabaram por fazer com que isso fosse um processo muito natural.

 assinatura-coracao

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