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Literature

Saí de casa apressada, quase a reclamar do calor, mas dei por mim a agradecer pela luz do sol.

Nem sequer me atrevo a descrever o trânsito. Hora e meia e 200 Kwanzas depois (não há “parqueamento” grátis na cidade), um lugar perfeito para estacionar.

O dia a começar bem.

Esquivo uma grelha de peixe a fumegar, digo olá ao rapaz que vive de estacionar carros, sou repentinamente abordada por um candongueiro que me pergunta se vou para os Congolenses, vislumbro mais uma torre megalómana que cresceu da noite para o dia, penso na maka do Kwanza e faço uma check list mental para o fim-de-semana no Mussulo.

Está mesmo muito calor. Apetece-me dar um mergulho, mas já estou sentada à secretária. Tento alhear-me dos barulhos lá fora (são tantos), mas o quotidiano pitoresco da cidade entra pela janela, invade os computadores, mistura-se connosco e…

Bem disse Agualusa[1]:

 “Se fosse uma ave, Luanda seria uma imensa arara, bêbada de abismo e de azul. Se fosse uma catástrofe, seria um terramoto: energia insubmissa, estremecendo em uníssono as profundas fundações do mundo. Se fosse uma mulher, seria uma meretriz mulata, de coxas exuberantes, peito farto, já um pouco cansada, dançando nua em pleno carnaval”.

Luanda

…o que é Luanda para mim? É essa a pergunta?

Também uma mulher. Tem de ser uma mulher. Não uma mulher composta, sóbria, racional e de boas famílias. É apaixonada, arrebatada, um tanto desequilibrada, tão quente e tão vibrante, que desequilibra o ser mais estudado. Mas sem ela, fica tudo mais cinzento.

Por ela não é possível ter um sentimento morno, indiferente. Se assim for, já não se vive, existe-se apenas em estado meio comatoso.  Porque ela chega, de lábios pintados de encarnado, enfeitiça-nos, canta o seu canto de sereia (o tal canto da Kianda) agarra-nos e quando menos esperamos, deita por terra quaisquer convenções e pré-conceitos antes deambulantes.

Luanda exótica e húmida. Uma mestiçagem de vivências. Talvez uma estilização da Cultura Angolana, fazendo jus à profundidade da nossa (minha e sua) mesclada herança.

Um novo país sem fronteiras, uma terceira cultura, uma raça parida da fusão cultural.

Em pouco mais do que uma década de paz, não há tirada genial que expresse tudo o que foi vivido. Nem previsão possível para o que ainda está por vir.

Uma cidade que se está a redescobrir (ainda mais do que a ser descoberta), com lugares, gastronomia, artes e sonoridades com traços antigos e novos, elementos identitários e hábitos cada vez mais diversificados.

Luanda é hoje uma cidade com um ritmo ímpar, cosmopolita, jovem e vibrante, aberta à mudança e às tendências mundiais, exímia representante da nova África que agora se apresenta ao mundo.

Procura, no entanto, a sua identidade, porque dentre a modernidade crescente tenta não esquecer as suas Tradições.

A cidade contagia-nos. Transmite-nos o seu caos ambulante. Vejo-me constantemente, por causa dela, a tentar colocar uma ordem nos meus sentimentos – pensamentos confusos. Vou chamar-lhes “pensações”.

Luanda é caótica, estaleiro de obras, mais um estado de espírito do que uma cidade. É – se Luandense porque se respira os seus (des)encantos, porque se adopta esse estado…quase civil, quase da alma.

Ah! E inspirada por ela tive uma ideia imbatível (terá sido minha?)

Vou mandar catalogar como património da humanidade a gargalhada dos angolanos, os almoços de Sábado, os festejos com os amigos à beira – mar em noites de sempre – verão, a kizomba apertadinha e a de passadas complicadas, o respeito pelos “mais velhos”, o primeiro mergulho de fim de semana em Cabo Ledo, as sentadas no Mussulo com a família alargada,  as noites passadas ao Luar na Ilha do Cabo e o Pôr do Sol no Cacimbo. Tão grande, tão colorido e marcante, como não há outro igual.

Porque se mos tiram, eu perco sentido.

Luanda tem semba, que é morte e é vida, é suor e é gente.

Tem funge e tem mufete, tem sol e boa gente.

Tem progresso e tradição, artes plásticas, cinema e animação.

Tem Pepetela e Paulo Flores.

Tem inúmeros vencedores, anónimos e conhecidos, Maria do Carmo Medina e Uahenga Xitu, tão próximos nos desafios enfrentados e na hora da partida, ficando, mesmo assim, para todo o sempre ao pé de nós.

Agora só falta o essencial: precisar o que foi pedido. Com mais tempo. E para acabar bem, talvez um poema, qualquer  mescla de sons que, em Luanda, têm sempre sabor a música de uns para outros corações.

Agarremo-nos à beleza da jornada, vamos ter que esperar pelo final.

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[1] José Eduardo Agualusa, in Louvação do Caos.

*Texto publicado no Livro Taras de Luanda, editora Chá de Caxinde, 2015

**Fotografia de Bernardo Gramaxo

 

Uma declaração de amor a cidade de Luanda.

Esta é apenas uma das formas possíveis de descrever a obra “Taras de Luanda”, que reúne textos de 16 autores, lista que orgulhosamente integro, e que está já disponível, sob a chancela da Editora Chá de Caxinde.

Os direitos de autor revertem para a Aldeia das Artes – Meninos do Mussulo.

O The Alexe Affair recomenda imensamente a obra, a todos aqueles que tenham ligação emocional com Luanda, ou apenas curiosidade sobre os meandros desta cidade tão envolvente.

Taras de Luanda

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