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Wildlife

A Revista Rotas & Sabores publicou, no seu n.º 12, o 2.º editorial sobre Praias em Angola.

O artigo, elaborado com a colaboração do The Alexe Affair, contém a localização e descrição das praias mais interessantes de Angola, de Cabinda ao Namibe, de forma a responder todas as suas questões e a ajudá-lo a descobrir este belíssimo país.

No próximo post, veja qual a nossa sugestão para mergulhos em Cabinda.

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O semba é nossa alegria

O semba é a nossa bandeira

É esperança é amor

 

Paulo Flores, in «Poema do Semba»

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Guitarra e voz, pela madrugada fora. Tenho uma relação quase visceral com a música. Uma voz paciente, apaziguadora. A voz do meu pai.

Talvez o primeiro som de que tenha memória.

O choro insistente de uma criança a dar o mote para esta forçada tertúlia familiar.

Um amor incondicional pela música a formar-se desde esse momento.

Entendo a música como o som dos nossos sentimentos.

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Mais de 30 anos depois, guitarra e outra voz, numa sala escura, em desejada tertúlia musical.

A respiração em suspenso, à espera do acorde seguinte, a alma em êxtase, um sorriso indelével nos lábios, a música a ocupar o seu lugar. Lá em cima, no palco.

Sou de um país que tem um sentimento de ligação inexorável com a música.

Esta é a espinha dorsal da nossa cultura. A forma de arte que melhor entendemos e melhor nos entende. Música é suor e é gente, é arte e nunca mente.

O som começa cedo. Talvez não termine nunca.

O quotidiano tem banda sonora, que percorre as veias da cidade e se entranha no grito das vendedoras de peixe, logo pela manhã, no arrastar de chinelos de quem acorda cedo, soando a dikanza [1], no primeiro balde de água atirado para o quintal, no chamamento insistente dos candongueiros, nas crianças que correm para a escola, nas buzinas dos carros, nas gruas dos estaleiros de obras, nas rádios que tocam as músicas de hoje e as de sempre, nas gargalhadas em uníssono em dias de sempre — verão, nas ondas do mar, nas noites em que não mexe uma folha e os corpos, transpirados, se envolvem num longo abraço dançado, e o ritmo marca o compasso dos corações.

Parece-me mesmo que a música tem sabor…

O mufete cai bem com a kizomba, o funge é ‘ritmado’ ao som do batuque, as novas sonoridades, ecléticas, afromundiais, condizem com cozinha de fusão…

Luanda é o berço de estilos musicais como a kazukuta e o semba [2].

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Na ilha de Luanda, nasce a rebita — terão as bessanganas[3], em adoração a Kianda[4], gerado a rebita? — acompanhando a intensidade das calemas[5] e as redes dos pescadores.

O semba, a nossa bandeira, que partilha raízes com o samba[6] — histórias entrelaçadas de duas culturas que se influenciam — é também o predecessor da kizomba e do kuduro.

Música urbana que cresce, ramifica, expande e se reinventa com as cidades.

Afro-house, afro-jazz, house apenas, jazz apenas, melodia com identidade, sem tempo nem espaço, fusão entre o africanismo e o mundo, música contemporânea apenas, sons que se misturam e interligam, que ultrapassam fronteiras e revelam novos mundos.

Percorri o país, procurando pontos de encontro, uma explicação para questões intemporais pendentes, origens culturais, antagonismos pendurados e, sem o ter desejado, encontrei um fio de ligação entre o Norte e o Sul: a música.

 

Cabinda.

Norte. História, mistério, lendas, tradição, Mayombe.

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À procura da nossa cultura, encontrei gigantes dançantes em vestes imponentes e rostos ocultos por máscaras artesanais.

Os Bakama, um dos mais notáveis símbolos da cultura Cabinda, são uma instituição secreta, excecional, uma espécie de religião tradicional, cujo centro e principais manifestações ocorrem no Morro do Tchizo.

Imbuídos da missão de baluarte dos princípios e da moral, efetuam exibições em cerimónias relevantes na vida da comunidade, de que a música e a dança fazem parte integrante.

Com regras muito próprias, e um secretismo imenso relativamente à identidade dos integrantes do grupo, cada um dos membros tem um nome, uma posição e um significado específicos, todos ligados à exaltação de virtudes, princípios morais, e ao poder dos espíritos da terra.

É preciso uma autorização especial do líder do grupo para a realização da cerimónia, e um acordo relativamente às oferendas, que são minuciosamente selecionadas.

Dançam como quem ora, folhas secas de bananeira que adornam a indumentária ao vento, máscaras expressivas que obrigam à adivinhação, transformando-os em quase deuses, os cânticos batucados a elevar a cerimónia, a conferir leveza aos movimentos, a fazer-nos acreditar.

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Uma autêntica oração dançante.

Um ritual único, irrepetível, de origem desconhecida, paragem obrigatória no tempo, nunca mais de lá consegui sair.

 

Namibe.

Sul. Deserto, Iona, tradição, nómadas, Himbas.

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Percorremos o Parque do Iona em picada incerta durante cerca de sete horas, olhos inquietos entre o relógio, os animais que galopavam ao nosso lado, a vegetação, ora escassa, ora surpreendente, paisagens de vários tons, de cores inimagináveis por detrás de cada monte.

O coração a bater meio sem ritmo, descompassado, ansioso por tudo o que não podíamos apreciar com tranquilidade, porque tínhamos encontro marcado, à hora dourada, com eles: os Himbas.

As mulheres cobertas com otjize[7], tons de pele ocre, perfumadas, peitos orgulhosamente exibidos sem nota de malícia, pulseiras exuberantes nos pés e nas mãos, as cabeças ricamente adornadas, um ideal de beleza totalmente diferente do convencional. Ainda assim, e talvez por isso mesmo, belíssimo.

Olhavam-nos com curiosidade.

Não sabíamos bem qual era o nosso papel ali, a curiosidade e o fascínio a toldar-nos a mente.

Decidi fazer parte da tribo, misturar-me, fundir-me, sair de uma zona de conforto pouco confortável e deixar de observar de fora para dentro.

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O ritual de transformação começou pelo exterior, pela renegação das minhas roupas ocidentais e pela unção da minha pele com o otjize. Fui recebida e acarinhada pelas mulheres da tribo como se fizesse parte dela, fui adornada pelos seus adornos, e descobri que a linguagem da música é a melhor forma de comunicação.

Em roda com a tribo, sem instrumentos, apenas com o ritmo do bater das mãos, pés, e sons feitos com a boca, foi criada música naquele momento de comunhão, de transe coletivo, em que perdi a noção do tempo, me perdi no tempo, num tempo sem fim.

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Entre este Norte e Sul, outras sonoridades se encontram.

Voltamos aos sons do quotidiano. Esperamos por novas melodias.

Mesclamos tradição e modernidade, traçamos percursos musicais até que o mundo faça sentido.

Nela, na música, se encerra a nossa alma.

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[1] Reco–reco.

[2] Outros estilos e subgéneros não constam injustamente desta pequena lista.

[3] Mulher luandense, da Ilha de Luanda, que se veste de forma tradicional, com panos.

[4] Sereias, ‘espíritos das águas’ e uma das entidades reguladoras do mar, dos lagos, dos rios, dos peixes, das marés e da pesca.

[5] Ondas gigantes.

[6] A palavra samba tem origem no semba e significa ‘umbigada’.

[7] Mistura de manteiga, feita de leite de vaca coalhado e pedra ocre triturada, que confere à pele um tom avermelhado, e que serve provavelmente como proteção do sol e vento. Hidrata a pele em profundidade e é um elemento de atração do sexo masculino.

NB. Texto publicado na Ed. 53 – Dez. 2015 / Jan. 2016 da Revista Espiral do Tempo

Fotografias de Sérgio Afonso e Alexandra Gonçalves, para a The Art Affair e a The Takes

Texto sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal

A edição de Outono da Espiral do Tempo está com os “Motores” afinados.

Desafiada a acelerar os meus motores por Angola, com a The Takes e a The Art Affair, a busca pela “Onda perfeita” serviu de mote para, uma vez mais, partir à descoberta.

Desta vez, o Zaire está em destaque.

Com fotografias de Sérgio Afonso e Mauro Motty, o texto será publicado brevemente no The Alexe Affair.

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The Namib Desert’s main characteristic is its inability to leave anyone indifferent.

I can’t say this any other way.

The fascination seems to start in the imagination of those who wish to know it.

At least, that is how it happened.

As soon as we arrived and before we entered the desert, we wanted to explore the town of Namibe.

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Peaceful, by the sea, it is difficult to believe that it is surrounded only by desert and sea. It preserves some imposing colonial buildings, with a highlight on the vintage Cine-Estúdio, an architectural work signed by Botelho de Vasconcelos, a futuristic building never completed, possibly from the 1960s, whose first impression reminds one of Oscar Niemeyer. Creative times.

We wanted to try right away, on the spot, the tasty crab from Namibe.

It tasted like the sea. It had the taste of the desired arrivals. Finally.

The food is inexorably linked to sensations that last from wherever we have been happy.

Namibe, whose name has its origins in the local-language word namib, means «vast place». The desert is indeed a gigantic 80,900 km2, extending for 1600 km along the Atlantic coast of southern Angola down through southern Namibia.

We entered the desert late at night, unable to rely on our sight. We used our hearing because we heard the beat of the waves, and our sense of smell because we could smell the sea, and our imagination, irrigated with adrenaline, took us beyond the next dune.

The lack of sight heightens the imagination, and the desert was that which imagination dictated.

We arrived at Flamingo Lodge, where we would stay for a few days.

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Completely isolated, it has a ‘roots’ but comfortable environment that everywhere in the middle of the desert sought out by surfers, sports fishermen or merely desert lovers should have.

Here, we feel time slow down…

At sunrise, we have an invigorating breakfast, looking at the sea, with our adrenaline rising, as we just want to hit the road.

Will we see a wave that is 3 km long? And seals, dolphins and whales? Beaches with sand dyed purple by seaweed?

And this time (again), last night’s over-active imagination lives up to the reality.

The jeep drives along the shore, playing with the water, seagulls flying all around us, crying, as excited as we are, and I knew, there, at that exact moment, the taste of freedom.

We found the Vanesa Seafood wreck, stranded an immeasurable time ago, reminding us that all that desert had once been sea.

And the dunes…

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The dunes were everything we had been promised. Fine golden sand, undulating so perfectly that they seem to have been styled the night before by a patient stylist whose function was attributed to him centuries before.

I sigh.

How does so much nothing form an empire of sand, and allow unique landscapes, nothing equal to the earlier ones?

We became lost looking around, without being able to contain the astonishment and the smiles, dazzled by the sun shining on the sand and by the blue sky, clearer than anywhere else.

The Canyon seemed to me the perfect place for an opera in the middle of the desert, but I don’t know if the sand mounds, like monumental rocks, would support the intensity of an aria.

The Arc, an oasis in the desert, contains three lakes, the middle one the most famous, the existence of naturally formed arcs in the sandstone giving this heavenly place its name.

At the time without water, completely dry, a plaque indicating that diving is prohibited challenges the limits of our imagination.

We have to return, we promise, to see the lake and, who knows, to make a prohibited dive on a night with a full moon.

Time does not slow down. It goes on, indifferent.

With a heart full of so much desert, I find myself back at my desk, looking through the window. Skin tanned from the desert sun, remnants of sand in my luggage, more tales to tell, I smile, happy in the knowledge that there is still much more to live, and to discover.

May there be time, always.

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assinatura*Text first published in Espiral do Tempo Magazine.

*Photography: Mauro Motty

There is something very special about small-town airports.

Land in the middle of the runway, alight right there, using your own feet, without a sleeve or van, always seems to me to be an adventure.

A huge rainbow covers one side of the runway and appears to welcome visitors to the town of Lubango.

Lubango was given municipal status in 1923 and was once nicknamed «Garden of Angola». Over the years it has suffered but it has strived to preserve the dignity of times gone by.

It still preserves all its natural inspiring beauty (such is a green environment!), with waterfalls, hills, wide plains, giant fissures, a winding road that leads to the desert, all blessed by Christ the King who observes from on high with a complacent air.

One drive around the town and its surroundings is all it takes to see that we are in another dimension, and that we have gone from a temporal dictatorship to another, being this one a much pleasanter regime.

Fenda da Tundavala

We had a set destination: The Rest.

«Pululukwa» means «rest» in Umbundo, a national language, and it is a resort located in the outskirts of Lubango, though it could be located anywhere in the world, such is the eclecticism it shows, and which gives it an international aura.

With a rustic but refined decoration, its ‘villages’ remind one both of Madeira (yes, the Portuguese archipelago) and of a kimbo[1] in southern Angola.

Decorated with items from Thailand and other exotic places, with South-African ceilings suggestive of cosiness, yet always with Angolan features strongly present…and with so many other small details that make a big difference. As do the attention and open smiles that greet us. And the homemade sweets made from local fruit.

And how can we not rest when all around us is the maudlin murmur of running water, the smell of ripe guavas from the trees at the entrance to the chalets, even at arm’s length, to feed idleness, and a restaurant whose menu is flexible to the whims of the seasons and which makes a point of having, as guests of honour, the delicacies of Lubango. So don’t be surprised if the delicious local meat comes with fuchsias, or if the soft drink is a snow cone of just-picked guava.

And imagine waking with zebras at your window.

All this is Pululukwa.

The tour of Lubango the next day confirmed all yesterday’s expectations.

We saw the Huíla and Hunguéria waterfalls that demanded joyous dips, Our Lady of the Mountain (“Nossa Senhora do Monte”) with her dual function of confession and belvedere, with a view over the town, the deep Tundavala Fissure so unique and enigmatic that it surely hides the answers to many of the mysteries of humanity, the Serra de Chela that, as in Rio de Janeiro and Lisbon, is crowned with Christ the King, we tasted Lubango strawberries, the country’s most famous, and we couldn’t fail to taste the local sausage.

A real trip of the senses.

After quenching our thirst with water from the river, we heard the mujimbo[2] that the restaurant Kimbo do Soba was ready to receive us. This restaurant specialises in game meat galloping to the grill: boar, oryx, kudu…and crocodile!

Surprising Lubango.

But it is time to leave…

Serra da Leba

We decide to follow the Hermenegildo Capelo and Roberto Ivens route in the direction of the Coast.

We are speechless before the sunset…that promised African sunset, huge, yellow, orange, red, all the hues, coming down the marvellous, curvy, feminine and stunning Serra da Leba, which insists on successive meetings in an unending courtship with the Namib Desert.

Namibe will follow.

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[1] Kimbo — village, hamlet.

 

[2] Mujimbo — news item generally unsubstantiated and anonymous, spread publically; rumour, gossip.

 

*Text first published in Espiral do Tempo Magazine, edition 51.

*Photography: Bernardo Gramaxo.

Lubango

Há algo de muito especial em aeroportos de cidades pequenas. Aterrar no meio da pista, desembarcar ali mesmo, pelo próprio pé, sem manga ou autocarro, cheiram-me sempre a aventura.

Um arco-íris imenso cobria um dos lados da pista, que parecia encarregue de dar as boas vindas à cidade do Lubango.

O Lubango tem estatuto de cidade desde 1923 e foi, outrora, apelidado de «Jardim de Angola». Sofreu com a passagem do tempo, é certo, mas esforça-se por preservar a dignidade de outros tempos.

Conserva ainda toda a sua beleza naturalmente inspiradora (é assim o verde!), que envolve cascatas, serras, longas planícies, fendas gigantes, uma estrada em ziguezague que desemboca no deserto, tudo isto abençoado pelo Cristo Rei que observa lá de cima com ar complacente.

Basta a primeira volta de carro pela cidade e arredores para percebermos que estamos noutra dimensão, e que passamos da ditadura temporal para outro regime bem mais aprazível.

Fenda da Tundavala

Tínhamos destino marcado: O Descanso.

«Pululukwa» significa «descanso» na lingual nacional, o umbundo, e é um resort situado nos arredores da cidade do Lubango, mas que poderia estar localizado em qualquer outro lugar do mundo, tal o ecletismo com que se apresenta, o que lhe confere uma aura internacional.

Com decoração rústica mas requintada, as suas ‘aldeias’ lembram tanto a Madeira (sim, o arquipélago português) quanto um kimbo[1] do sul de Angola. Decorado com peças vindas da Tailândia e outras paragens exóticas, tetos sul-africanos que sugerem aconchego, sempre, no entanto, com uma angolanidade bem presente…e com tantos outros pequenos pormenores que fazem uma grande diferença. Como a atenção e o sorriso aberto de quem nos recebe. E os doces caseiros feitos com frutos da terra.

E como não ficar descansado se por todo o lado há o murmúrio meio lamechas da água a correr, o cheirinho a goiaba madura que vem das árvores à entrada dos chalets, mesmo à distância de um esticar de braços, para alimentar o ócio, e um restaurante cuja ementa é flexível aos caprichos das estações e que faz questão de ter como convidados de honra as iguarias do Lubango. Por isso, não se espantem se a deliciosa carne da terra for acompanhada de brincos-de-princesa, nem se o refresco for um granizado de goiaba acabadinha de apanhar.

E imagine acordar com zebras à janela.

Tudo isto é Pululukwa.

No dia seguinte, o passeio pelo Lubango confirmou as expetativas da véspera.

Vimos as cascatas da Huíla e da Hunguéria, que pediram mergulhos festivos, a Nossa Senhora do Monte com a sua função dual de confessionário e miradouro com vista sobre a cidade, a profunda Fenda da Tundavala, tão enigmática e única, que decerto esconde as respostas para muitos dos mistérios da Humanidade, a Serra da Chela, que seguindo a linhagem carioca e lisboeta, é coroada pelo Cristo Rei, provámos os morangos do Lubango, os mais famosos do país, e não pudemos deixar de experimentar o chouriço da terra.

Serra da Leba

Uma verdadeira viagem dos sentidos.

Depois de saciarmos a sede na água do rio, ouvimos o mujimbo[2] de que estaria o Kimbo do Soba pronto a receber-nos, um restaurante especializado em carne de caça, já a galopar para a grelha: javali, órix, cudo….e crocodilo!

O Lubango a surpreender.

Mas chegou o tempo de partir…

Decidimos seguir a rota de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, rumo a contracosta.

Emudecemos perante o pôr do sol…aquele imenso, de cor amarela, laranja, vermelha, de todos os tons, o prometido por do sol africano, ao descer a maravilhosa, curvilínea, feminina e estonteante Serra da Leba, que insiste em marcar encontros sucessivos, num infindável namoro, com o Deserto do Namibe.

 

[1] Kimbo — aldeia, pequeno povoado.

[2] Mujimbo — notícia geralmente infundamentada e anónima, difundida publicamente; boato, mexerico.

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*Texto publicado na edição n.º 51 da Revista Espiral do Tempo (sob o novo acordo ortográfico).

**Fotografias de Bernardo Gramaxo.

 

Está calor, demasiado trânsito, e os ponteiros do relógio impõem, minuto após minuto, ruidosamente, a ditadura do tempo.

O quotidiano de Luanda é demasiado intenso…

Sentada à secretária, conto os tais minutos (os segundos, talvez) para seguir para o aeroporto e embarcar rumo ao destino escolhido. Uma outra Angola, tão diferente daquela que vislumbro por entre a janela, com vidro, betão e aço inoxidável a entrecortar a vista para o mar.

Luanda é bonita, ainda assim.

Mas…há o verde do Lubango…e as dunas do Deserto do Namibe.

Outras paragens esperam por nós.

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De onde estou, parece um destino tão próximo quanto distante, sensações inexplicáveis por se tratarem de realidades que, por tão díspares, me parecem etéreas.

É continuar por Angola, mas sair das tais sensações do quotidiano, porque saímos de facto de uma zona de conforto que nem sempre é confortável, e porque para animais do betão, que somos nós, os meios mais naturais podem parecer ser os mais agrestes.

Estamos tão enganados…

O apelo da descoberta é superior a qualquer cansaço ou receio. É tempo de descobrir.

É frequente questionar-me, nesta que considero ser a (minha) fase de (re)descoberta de Angola, se somos nós a (re)descobrir o país ou se é o país que se está a (re)descobrir, permitindo que nos redescubramos em cenários inéditos.

Quem será, pois, o sujeito ativo nesta estrutura frásica?

E também porque, num tempo diferente do tempo de agora (parece redundante? Quem viveu Angola sabe que não), em que conhecer o país se afigurava tarefa hercúlea, por força do tal tempo, essa descoberta de que falo é afinal um aprendizado.

O Lubango…vem já a seguir.

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*Texto publicado na edição 51 da Revista Espiral do Tempo (sob o novo acordo ortográfico).

**Fotografia de Mauro Motty

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