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Desde 2013, percorrer Angola tem sido um objetivo pessoal, como se fosse necessário – quase urgente – palmilhar cada centímetro do país.

Não o consigo explicar… há uma força quase sobrenatural que me compele a querer conhecer cada grão de areia vermelha, cada embondeiro plantado à beira dos caminhos, com largura massiva quase delgada, de tão elegante, e cada gotícula de água desta infindável e inexplorada costa.

O mar…

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Confesso que ele tem ditado as regras dos meus passos, e definido que locais serão, na próxima viagem, por mim visitados.

Num país com mais natureza virgem do que cidades industrializadas, é no meio da natureza que nós, os luandenses, nos refugiamos de tudo aquilo que carateriza a vida na cidade… numa palavra, do tão temido stress.

Sou uma apaixonada confessa de viagens de carro, em que tudo está literalmente nas nossas mãos: a escolha da viatura adequada para o passeio, quem será o companheiro sentado ao nosso lado, que paragens faremos, a que velocidade seguiremos, que caminhos escolhemos, que sons, que paisagens…

É preciso que tudo funcione como um relógio, e que os nossos motores – o nosso coração, o do carro, o do próprio relógio – não falhem. Nunca.

Se olharmos com a devida atenção – naqueles momentos em que as roldanas à nossa volta desaceleram um pouco –, há uma ligação inexorável entre os motores que dão movimento à nossa vida.

O movimento de um relógio pode ser comparado ao motor de um carro, que necessita de lubrificação, limpeza e ajustes regulares. Se o sistema se imobilizar, haverá atrito entre as peças, inutilizando, em pouco tempo, todo o sistema.

Ora, não funciona, de igual forma, o coração? Não é verdade que parar, não alimentar, não se extasiar, deixar de querer conhecer… é de alguma forma morrer?

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O próximo destino seria o Zaire.

Situada a noroeste de Angola, a província do Zaire tem-se, ao longo dos anos, pouco ou nada desenvolvido no que respeita ao turismo. Não tem infraestruturas capazes, é pouco explorada, os guias turísticos que pudemos consultar não conseguiam despertar em nós o bichinho da curiosidade… Então, por que lá ir?

Bom, na verdade havia um motivo. Era mais um segredo. Talvez até uma joia rara.

Pronto, era um motivo, apenas, mas tão singelo, enorme na sua singularidade, que nos fazia quase tremer de excitação. Porque não interessava apenas o que íamos lá encontrar. Toda a jornada até ao destino escolhido valeria por si. «Adventure is worthwhile in itself», como bem disse Amelia Earhart.

A busca pela Onda perfeita. Assim mesmo, com letra maiúscula, como se fosse uma senhora importante.

A busca por ondas nunca antes surfadas.

Desde que o projeto de realização do primeiro filme de surf em Angola começou a tomar forma, esta busca tornou-se incessante. Angola deixou de ser um país quase quadrado no mapa pendurado na parede. Percebemos que este desporto, que é mais uma forma de vida, uma terapia, uma ligação à natureza, um amor talvez, poderá vir a ser o motor do turismo em Angola. Então, por tudo isto, não podemos mais parar.

Eu e os meus companheiros de viagem sentimo-nos, por isso, conquistadores de tesouros formados por água, vento e encostas perfeitamente desenhadas para proporcionar o swell perfeito para surfar.

Nessa viagem, levados pela estrada que seguia rumo a norte, procurávamos o nosso norte em uníssono, com os motores – todos eles – em compasso perfeito.

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Pelo caminho, sorria. Só me conseguia lembrar, com carinho, de Manuel Rui Monteiro e do romance Quem me dera ser onda. Teríamos nós direito ao nosso «Carnaval da Vitória»? Estórias de meninice, que voltam sempre, como a brisa do mar.

A Barra do Dande: o encontro do rio com o mar. Um breve desvio para subir a encosta e apreciar a paisagem. Um local estranhamente silencioso, tão perto da azáfama luandense que deixáramos há escassos minutos. Histórias que se entrecruzam com a nossa. A da mulher deixada só com os filhos, que controlava o farol com olhos de lince, e que mantinha a sua horta no terreno outrora minado. A do militar responsável pela desminagem daquele território, e que trazia a esperança no olhar. Motores de desenvolvimento de um país.

Seguimos viagem. Admirar a costa pela esquerda era uma novidade. Mar, rio e encosta verdejante. Ambriz trouxe-nos promessas que nos deram esperança. Sim, há quem tenha surfado ali, conta-se. O nosso motor nunca parou.

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A nossa busca era imparável, por terrenos sem trilho, em que parecíamos ser os primeiros a chegar. Mais do que procurar ondas, acabamos por descobrir caminhos. A dúvida de saber se o carro passaria ou não, se a areia seria suficientemente firme, se aquela ponte colonial seria ainda segura, se o Soba nos concederia o favor de passar… há poucas coisas que se assemelham ao desbravar do próprio caminho.

E o Zaire…finalmente.

A sua capital, M’banza Congo, foi a capital do antigo reino do Congo, e toda essa proximidade com o país vizinho faz com que esta província e os seus habitantes tenham caraterísticas sui generis.

A região, rica em recursos naturais, tem praias ladeadas por savana e floresta densa e húmida, com madeiras de alto valor, como o pau-preto.

Mas o mais entusiasmante no meio da paisagem é a existência de rochas ao longo do caminho, embutidas nos montes, dispostas de forma ornamental, como que em exibição, para serem apreciadas. Uma verdadeira Stonehenge angolana.

Encontrámos, na vila piscatória do N’zeto, exatamente o que procurávamos.

Já não era uma promessa, era a concretização. Era uma das poucas praias surfáveis a norte de Angola, o que a torna muito especial.

Famílias de pescadores puxavam a rede, com esforço, mas sempre com aquele inexplicável sorriso de quem vive com pouco.

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Miúdos faziam skimming e saltos mortais à beira-mar.

Estávamos cansados, transpirados, e só o peixe grelhado acabado de apanhar e uma Cuca fresquinha conseguiu apaziguar os quilómetros percorridos. Partilhávamos o inexplicável sorriso dos pescadores. Já tínhamos sido contagiados.

E aquela Onda…

Soubemos, ali mesmo, que o mar era o motor que criava vida.

 

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*Crónica originalmente publicada no número 52 da Revista Espiral do Tempo, sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal.

** Fotografias de Rui Sérgio Afonso e Mauro Motty, durante viagens por Angola com a The Art Affair e a The Takes.

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A Revista Caras Angola teve a gentileza de fazer uma reportagem sobre o The Alexe Affair, na edição de 01 de Março de 2014.

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A ENTREVISTA

Criativa e bem sucedida, Alexandra do Nascimento Gonçalves é uma angolana com inúmeras facetas. Filha de Manuel e de Margarida Gonçalves, esta jovem de trinta e um anos de idade divide o seu tempo entre inúmeras actividades que considera serem as suas grandes paixões.

A advogada, especializada em Direito Comercial e Societário, actualmente integrante das Ordens de Advogados de Angola, Portugal e candidata a Ordem de Advogados de Inglaterra, tem também o projecto para criação de uma produtora audiovisual, a “The Art Affair”, com enfoque no potencial turístico, cultural e desportivo do nosso País.

Definindo-se como advogada de profissão, é devota e apaixonada pelas artes. Entre outras características, Alexandra Gonçalves diz-se uma “viajante incurável, aspirante a escritora e com um grande “fraco por fotografia”.

Dentro das suas actividades, reserva sempre um tempo para o ‘The Alexe Affair’, o blog onde descreve as suas viagens e interacções que vai criando com os sítios por onde passa.

 

Como é que se define?

Tenho sempre imensas dificuldades em definir-me, porque a visão que temos de nós próprios pode não ser a mais realista.Mas considero-me uma pessoa muito proactiva, extremamente curiosa, sempre com mil planos e com vontade de descobrir e concretizar coisas novas. Tenho dois lados bem vincados, o de advogada com características consideradas “mais sérias” já que a profissão requer um certo tipo de postura profissional, e o lado artístico que é, parece-me, muito evidente, apesar de eu não estar directamente ligada às artes. Mas tenho uma influência artística na família muito grande. O meu pai é advogado, mas também é músico, e é um apaixonado pelas artes plásticas, principalmente de artistas angolanos, e portanto eu cresci muito neste meio… No meio da música, dos quadros e das esculturas.

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Sente que a sua sensibilidade artística dá cor à advocacia?

O lado artístico acaba por dar um certo sabor a tudo, e será sem dúvida uma grande influência. Trabalhar rodeada de obras de arte certamente terá influência no resultado do meu trabalho e em tudo, na minha vida. Se sou poética? … bom, não sei…acho que vejo um bocadinho de beleza em tudo, e isso certamente trará pitadas de poesia ao meu dia a dia.

 

Considera-se uma pessoa singela?

Seria muita presunção dizer isso de mim mesma [risos]. Mas se não sou, gostaria de vir a ser um dia. De facto, acho que tenho a peculiaridade de agregar em mim muitos interesses. Tenho uma certa polivalência. Complemento-me fazendo uma pluralidade de coisas. Não me consigo resumir em uma coisa só.

 

É uma pessoa decidida?

Sim, muito. Muito determinada em atingir determinados objectivos.

 

O que é para si a família?

Tudo. Como se diz: “onde começa a vida e o amor nunca acaba”.Está sempre no coração.

 

Sabemos que o seu pai é uma grande influência para si. Que contributo tem a sua mãe no seu aprendizado?

A minha mãe é o meu ícone feminino. Ela tem uma personalidade muito peculiar. É uma mãe de quatro filhos que sempre teve uma carreira profissional brilhante. Julgo que aprendi com ela uma determinada postura de mulher. É o protótipo da mulher moderna e muito forte. Ela sempre cuidou da casa, da família, mas ao mesmo tempo nunca descurou a parte profissional e ensinou-nos que uma mulher tem de trabalhar, ter uma carreira, tem de tomar as suas decisões e ter independência financeira. Ensinou-nos principalmente que uma mulher deve ser independente emocionalmente. Portanto toda essa imagem de mulher forte vem dela, sem sombra de dúvida. É uma influência bastante significativa.

Não obstante, ela é também o elemento que nos traz “de volta à terra”. Personalidades demasiado poéticas precisam por vezes de wake up calls [risos].

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O seu coração esta actualmente ocupado?

Não. De momento estou solteira.

 

E como lida com o facto de estar solteira?

Super bem. Estou solteira há cerca de um ano, e na verdade julgo que tenho o condão de aproveitar tudo de bom que a vida tem para dar, em todos os momentos. Portanto, o facto de não estarmos emocionalmente ligados a alguem faz com que também tenhamos mais tempo para investir em nós mesmos, e isso acabou por ter um efeito bastante evidente no meu dia-a-dia. Tenho viajado muito, conhecido novas pessoas, voltei a ter aulas de canto e de piano, comecei a surfar, voltei a dedicar-me ao meu blog, e em termos profissionais tenho estado a investir imenso em áreas diferentes. Para além da advocacia, estou a candidatar-me para dar aulas na Universidade e para começar a escrever profissionalmente. Vou começar a ter aulas de equitação…Portanto…, é um mundo…

 

O seu dia tem quantas horas?

Eu acho que tem 48horas, mas não tem. Nunca páro. Jogo ténis as sete horas da manhã e depois vou trabalhar. À noite tenho sempre um programa. Acredito piamente que com uma boa gestão do tempo consigo fazer tudo. Não há lugar para o tédio e o aborrecimento na minha vida.

 

A sua vida social, os seus amigos, onde estão no meio de tanta coisa?

Os meus amigos estão sempre encaixados em tudo o que faço. Eu acho que consigo fazer alguns malabarismos interessantes. Tenho uma vida social intensa porque por natureza gosto muito de socializar, e acabo por ser muito eclética. Tanto me podem encontrar num cocktail, como a acampar em Cabo Ledo…

 

A que área da advocacia se dedica?

Eu trabalho essencialmente com Direito Societário. Gosto particularmente da área da Arbitragem (jurídica), ou seja, um meio alternativo para a resolução de conflitos.

O que é o “The Alexe Affair”?

É o meu blog, a minha paixão. Existe há dois anos, apesar de no ano passado ter estado muito parado, visto que por motivos pessoais e profissionais fiquei muito focada noutras coisas e acabei por pôr este meu lado um bocadinho de parte. Foi pena porque depois percebi que me fez imensa falta, visto sentir muita necessidade de me expressar pela escrita.

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A escrita é a forma de arte que lhe enche as medidas?

Adoro literatura, comecei a ler romances enormes desde muito nova. Talvez a leitura tenha levado à escrita. É a forma de arte com que eu mais me identifiquei até agora, porque talvez seja o que melhor sei fazer.

 

E como surgiu este blog?

Há já alguns anos que pensava em criar um blog e mostrar a quem quisesse ler aquilo que até à data estava confinado aos mais chegados. Mas depois havia também a insegurança de não perceber se valeria a pena, se suscitaria algum interesse, porque na verdade trata-se de uma análise muito subjectiva do que se passa nas minhas viagens e nas minhas vivências, em geral. E claro que precisaria de um fio condutor para não ficar perdida em mil pensamentos e depois acabar por não concretizar… Então pensei, se eu gosto muito de fotografar e tenho viajado tanto, porque não? Uma coisa levou à outra e surgiu a ideia de fazer narrativas de viagens com imensas fotografias, portanto o blog junta coisas que muito me agradam. E pronto, assim surgiu a ideia. Quanto ao nome, eu ia por um caminho completamente diferente e depois achei que ‘The Alexe Affair’ fazia sentido, porque gira tudo à volta do meu mundo.

 

Que relação tem com a moda?

Gosto de estar bem e de acompanhar as tendências. Ao longo dos anos eu aprendi a conhecer o meu corpo e o que me fica bem. Quase não experimento nada nas lojas porque sei de antemão o que vai resultar. Consigo logo perceber se determinado corte, padrão, cor e material me fica bem. Isso ajuda a estreitar esta dita relação com a moda, sem grandes stresses. Gosto especialmente de roupa muito feminina, uso imensas saias, vestidos, cores alegres, sedas, cetins, organzas…Tudo o que seja muito feminino, muito delicado, está na minha predilecção. Daí preferir os designers e as marcas que tenham essas características…Elie Saab, Miu Miu, Chanel, Erdem…

 

Considera-se uma “shopaholic”?

Eu já fui muito impulsiva a fazer compras. Estou muito mais moderada, muito mais consciente e agora opto por comprar peças boas, duradoras e que façam de facto a diferença no meu guarda roupa.

 

Mas não é uma coisa em que pense muito?

Nem por isso, eu tendo muito pela simplicidade. Quase não uso maquilhagem, por exemplo, gosto de andar quase sempre ao natural, excepto em determinadas ocasiões. Acredito muito na “beleza por via da saúde”. Valorizo muito mais uma pele bem cuidada e um aspecto saudável, que são os melhores “acessórios” que uma mulher pode apresentar. Gosto de conjugar peças, penso no que vou vestir, mas não me tira o sono. Julgo que a idade e a experiência acabaram por fazer com que isso fosse um processo muito natural.

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A cerca de 75 kms a Sul de Luanda fica o Parque da Kissama.

Para quem vive em Luanda ou arredores, é uma belíssima escapadela de fim de semana.

Para mim, uma visita perfeita a Kissama seria assim:

Começar por um delicioso almoço de sábado, antes da partida, de preferência com iguarias da gastronomia angolana (daquelas de comer e chorar por mais).

Ir almoçar aos Mangais também é uma opção engraçada, pela proximidade do Parque, e por este ser de facto um ponto de paragem obrigatório para quem faz o trajecto Luanda – Kissama.

De seguida, tentar estoicamente não ser derrubado pela doce tentação de ir dormir uma soneca a seguir ao almoço (tarefa árdua, eu sei, mas valores mais altos se “alevantam”).

De Luanda, leva-se cerca de 1h30 até a Kissama, mais 30 minutos de picada para entrada efectiva no parque.

Convém sair de Luanda a tempo de chegar a Kissama até à hora limite de entrada (17h).

À chegada, é-se simplesmente deslumbrado pela vista estonteante da bacia do Rio Kwanza e o seu vale verdejante, que nenhuma câmara fotográfica consegue captar na perfeição.

[O meu sobrinho, um bebé de fraldas, fez tal esgar de estupefacção ao vê-lo, tão genuíno, que nunca me há-de sair da memória]

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Após o check in, a ideia é usufruir da vista ao pôr do sol, de fogueira acesa, aperitivo na mão, petiscos a rolar e o som da guitarra a entoar melodias (att: importante levar um amigo que saiba tocar guitarra).

O resort, muito simples mas agradável,  tem um Restaurante, onde o jantar e o pequeno almoço do dia seguinte são servidos.

E porquê pernoitar? por um motivo muito pertinente: o safari às 6h da manhã! A melhor hora para ver exemplares de todos os animais que a reserva tem neste momento.

Girafas, Elefantes, Gnus, Bambis, Macacos, Zebras, Avestruzes, Palancas…Pássaros de diferentes tons de penas e cantares…

E de regresso, quem sabe…mesmo o breve poiso do olhar na superfície lunar e, já a seguir, o pôr do sol sobre as ilhotas ao largo da baía do Mussulo a passar o museu da escravatura não apagam da memória a elegância da girafa a gingar.

É um programa giríssimo para toda a família e grupos de amigos, para onde se recomenda levar boa disposição, sorriso aberto e máquina fotográfica!

 

Informações úteis: 

Girafa @Kissama

Quartos duplos: 20.000 Kzs / noite c/ pequeno almoço.

Safari: 3.000 kzs / pax

Passeio de barco pelo Rio Kwanza: 3.000 kzs / pax

À entrada no parque há lugar ao pagamento de uma taxa de 1.000 kzs / pax e por viatura.

Convém levar dinheiro em mão.

Contactos: +244 923 59 4382 / +244 935 28 4549.

Macaco @Kissama

 

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Fotos de Alexe Gonçalves e Bernardo Gramaxo para a The Takes e a The Art Affair.

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 Cabo Ledo é Amor que nos faz levitar…

Por vezes somos injustos com aqueles que mais amamos.

Estão ali ao lado, à mão de semear, e por isso muitas vezes nos esquecemos de agradecer pela sua existência nas nossas vidas.

Julgo que foi o que se passou até agora com a Praia dos Surfistas, em Cabo Ledo.

Esse tal reduto que se tornou maior que a sua localização geográfica, porque tem fama que já ultrapassou fronteiras, e por ser fantasiado por tantos milhares, ainda que nunca nele tenham depositado as angústias acumuladas durante a semana.

E tudo isto porque Cabo Ledo vale por si, claro, mas vale também por toda a magia inerente ao trajecto que nos transporta até lá.

O Miradouro da Lua…essa “unidade”, cratera decerto inventada por um Poeta, que das lunares nada devia perceber…

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E depois da Lua, há palmeiras e palmeirinhas.

Há Golfe nos Mangais.

Ainda o tanque de guerra mais pacífico de que há memória.

Elefantes, Girafas, Gnus e macaquinhos na Kissama.

Um desvio para a Muxima.

Sangano e praias desertas, inominadas, inexploradas, só nossas, para sempre nossas.

Terra vermelha, Rio Kwanza e Savana.

E um sem fim de estórias que teimam em não cessar.

Cabo Ledo

É mais uma extensão de terra e mar, como tantas outras por este Mundo fora.

Mas há praias assim….que acabam por simbolizar o que os que a adoram fazem dela, ou é ela que os torna uma verdadeira comunidade…não sei ao certo.

E porque a definição do que ela é pode resumir-se num simples “eu” (porque aí nos redescobrimos, reencontramos e nos tornamos nós), quero sempre voltar…para me encontrar…

…e às ondas boas para surfar

ao “strass” que brilha à beira mar

às estrelas que teimam o céu iluminar

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E sai-se de lá assim…com um sorriso no rosto e na alma…ansiando sempre pelo próximo dia em que a vamos beijar…

IMG_2985Depois de, com tranquilidade, termos “enfrentado” o sol…

Amo-te, Cabo Ledo.

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Paradise...

Paradise…

Há algo de inquietante em chegar a algum lugar novo, totalmente desconhecido, durante a noite…

Depois de tantos meses de espera (estávamos qual condenados a traçar os dias na agenda), e de finalmente chegarmos ao dream spot…e nada de Oceano Índico, palmeiras e areia branca?

Que paraíso é esse que nos recebe de noite, não se mostra, não faz logo aquela prometida massagem aos pézinhos?

É uma ilha de contrastes…e mesmo de noite isso é visível porque do aeroporto a Le Morne, onde ficamos hospedados, a outra face do paraíso se mostrou.

E por ser uma ilha de contrastes, e também o local ideal para o que eu chamo de férias preguiçosas, o local escolhido para ficar importa…e muito. É onde se vai passar a maior parte do tempo, por isso dedicámos muito tempo e pesquisa à escolha do Hotel, porque preguiçar é uma coisa séria e tem mesmo de ser bem feita.

Acabámos por ficar no Hotel Lux Le Morne , na zona sudoeste da Ilha, e a escolha não poderia ter sido melhor.

Quando acordámos tínhamos a vista lá de cima, e mais isto…(tipo, a 30 segundos do quarto)

IMG_7158E ainda isto….

IMG_7063Já me esquecia disto…

IMG_1458E até isto era divinal, sereno…e prometia sempre coisas boas para o dia seguinte. Posso voltar para lá?

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Bom dia, Alegria...

Bom dia, Alegria…

A viagem de fim de ano é já uma tradição familiar.

Percebemos que é a altura do ano em que toda a família mais um monte de amigos consegue tirar férias, por isso a partir de Janeiro o grupo todo começa a sonhar com o próximo destino, escolhido a dedo e com alguma pancadaria pelo meio (estou a brincar…quer dizer, mais ou menos).

Então as Ilhas Maurícias foram as escolhidas, sem escoriações de grande vulto. Tive sentimentos neutros quanto à escolha (que não foi claramente minha), porque apesar de ter noção da beleza paradisíaca da Ilha, eu normalmente não sei muito bem o que fazer com o dolce fare niente durante uma semana inteira.

No rescaldo de um 2013 tão cheio de tanto tudo…trabalho, viagens, emoções, alterações de personalidade que, como diria um amigo meu, fizeram com que “o meu nome do meio quase passasse a Carrossel” … e  de um mês de Dezembro tão trabalhoso como “Natalício” (leia-se festeiro!), vi-me repentinamente a agradecer a escolha…

Porque já estava em modo One Republic, qual náufrago agarrado à salvação de um refrão:

“Everything that kills me makes me feel alive”

“Everything that drowns me makes me wanna fly”

E isto porque eu, sempre tão activa, acelerada, cheia de energia e outras coisas simpáticas que me vão atribuindo, tive de me deparar com a dura realidade, tão penosamente admitida, só confessada a alguns, aqueles mesmo muito chegados…a verdade é que eu estava cansada.

E o que estava à nossa espera era simplesmente…encantador.

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O que fazer?

Arriscar? Não arriscar?

A praia da Equimina até nos parecia bastante agradável, mas o “desconhecido” parece ser sempre mais apelativo…e havia um je ne sais quoi de misterioso a rondar a “Baía dos Elefantes”…

…A começar pelo nome! Porquê “Baía dos Elefantes”? já lá houve mesmo elefantes? mamutes pré-históricos? muitas teorias demagógicas foram apresentadas pelo grupo, uma mais estapafúrdia do que a outra. Ficou por descobrir. Quem souber, que me envie um email!

…E como lá chegar? só mesmo por barco? ah, afinal há um caminho de terra batida? por onde? quanto tempo? quantas curvas a contar daquela árvore? (não, não há placas nem GPS que nos valha. Aliás, tentar usar o GPS é batota. És um descobridor, comporta-te como tal!).

O Alain: vou negociar com os pescadores uma boleia! Foi. Com andar decidido. Ficámos à espera, expectantes!

AlainNão tivemos sorte! estavam ocupados com coisas mais importantes como…pescar!

A Renata decidiu “testar” a água, com ar contemplativo…sabia que por aí vinha o desconhecido, e não fosse o diabo tecê-las, mais valia dar agora um mergulhinho…

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O Diogo, de máquina em riste, pronta a disparar, impaciente, a ponderar se a objectiva seria suficiente para ir além da linha do horizonte…

Fomos de Jeep. E tivemos de perguntar, na Aldeia mais próxima, qual o caminho. Muitas dúvidas…apenas um dos aldeãos falava português (ou corruptelas do português?) e a comunicação, por isso, não foi nada fácil…[lembrei-me, de repente…”acrescentar à check list para a vida: aprender um dialecto”]…pela esquerda ou pela direita? quanto tempo? teorias divergentes, ainda mais dúvidas, caminhos que nos pareciam iguais, montes feitos de terra, o carro quase a ficar enterrado, mas a vontade de lá chegar era superior ao receio de nos perdermos no meio do nada [tínhamos a segurança de um farnel de bolachas, queijo e vinho branco, devia dar para sobreviver durante uma semana]…

[se isto fosse um filme, eu seria o único sobrevivente, diz o Alain…]

E de facto, valeu a pena! E sobrevivemos todos!

As tais águas azul-esverdeadas, prometidas, lá estavam, a praia quase deserta (pergunto-me: quantas praias assim haverá ao longo da costa Ocidental Angolana, esperando pacientemente para serem descobertas?), montanhas que a mim lembraram manadas de elefantes, até uma chuva morninha que, apesar de deliciosa, veio acompanhada de trovões assustadores e enlameou o nosso caminho de regresso…

A cereja no topo do bolo, melhor, a “Cuca no topo do prego”, no bar Ferro Velho, em Benguela, bem acompanhados por um pôr do Sol vermelho-laranja e aves no Céu, fecharam a tarde.

E a noite já estava planeada.

Jantar no Aparthotel Mil Cidades, com uma cozinha com travo Indiano e decoração (belíssima!) Africana contemporânea. Daí seguimos para a lendária discoteca “Chirinaua” (é assim que se escreve?)…e o Chirinaua não desiludiu, porque era exactamente o que eu estava à espera.

Uma discoteca africana “à moda antiga”…pista de dança ao centro, eles e elas altamente kitados…a saia que dá com a sandália, que joga com o baton, que não descura o decote…kizombadas à séria, o jogo do “a menina dança?”, sorrisos à toda a volta, o cansaço a puxar de um lado, a vontade de dançar do outro…

Ombaka kuia!

E no último dia só apetecia não ir embora…os mergulhos na praia do Terminus não aplacaram a tristeza da despedida, mas a comida D-E-L-I-C-I-O-S-A do Restaurante D. Bina, no Lobito, ajudou imenso.

Caso para cantar…

Quando eu fui a benguela eu não quis regressar

Ao ver praia morena

Fiquei a sonhar

Que bela mulata

Princesa do mar

Deitada ao sol

Risonha a queimar…

Fotografias de Diogo Bettencourt Pereira e Alexe Gonçalves

 
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