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Surf

Desde 2013, percorrer Angola tem sido um objetivo pessoal, como se fosse necessário – quase urgente – palmilhar cada centímetro do país.

Não o consigo explicar… há uma força quase sobrenatural que me compele a querer conhecer cada grão de areia vermelha, cada embondeiro plantado à beira dos caminhos, com largura massiva quase delgada, de tão elegante, e cada gotícula de água desta infindável e inexplorada costa.

O mar…

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Confesso que ele tem ditado as regras dos meus passos, e definido que locais serão, na próxima viagem, por mim visitados.

Num país com mais natureza virgem do que cidades industrializadas, é no meio da natureza que nós, os luandenses, nos refugiamos de tudo aquilo que carateriza a vida na cidade… numa palavra, do tão temido stress.

Sou uma apaixonada confessa de viagens de carro, em que tudo está literalmente nas nossas mãos: a escolha da viatura adequada para o passeio, quem será o companheiro sentado ao nosso lado, que paragens faremos, a que velocidade seguiremos, que caminhos escolhemos, que sons, que paisagens…

É preciso que tudo funcione como um relógio, e que os nossos motores – o nosso coração, o do carro, o do próprio relógio – não falhem. Nunca.

Se olharmos com a devida atenção – naqueles momentos em que as roldanas à nossa volta desaceleram um pouco –, há uma ligação inexorável entre os motores que dão movimento à nossa vida.

O movimento de um relógio pode ser comparado ao motor de um carro, que necessita de lubrificação, limpeza e ajustes regulares. Se o sistema se imobilizar, haverá atrito entre as peças, inutilizando, em pouco tempo, todo o sistema.

Ora, não funciona, de igual forma, o coração? Não é verdade que parar, não alimentar, não se extasiar, deixar de querer conhecer… é de alguma forma morrer?

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O próximo destino seria o Zaire.

Situada a noroeste de Angola, a província do Zaire tem-se, ao longo dos anos, pouco ou nada desenvolvido no que respeita ao turismo. Não tem infraestruturas capazes, é pouco explorada, os guias turísticos que pudemos consultar não conseguiam despertar em nós o bichinho da curiosidade… Então, por que lá ir?

Bom, na verdade havia um motivo. Era mais um segredo. Talvez até uma joia rara.

Pronto, era um motivo, apenas, mas tão singelo, enorme na sua singularidade, que nos fazia quase tremer de excitação. Porque não interessava apenas o que íamos lá encontrar. Toda a jornada até ao destino escolhido valeria por si. «Adventure is worthwhile in itself», como bem disse Amelia Earhart.

A busca pela Onda perfeita. Assim mesmo, com letra maiúscula, como se fosse uma senhora importante.

A busca por ondas nunca antes surfadas.

Desde que o projeto de realização do primeiro filme de surf em Angola começou a tomar forma, esta busca tornou-se incessante. Angola deixou de ser um país quase quadrado no mapa pendurado na parede. Percebemos que este desporto, que é mais uma forma de vida, uma terapia, uma ligação à natureza, um amor talvez, poderá vir a ser o motor do turismo em Angola. Então, por tudo isto, não podemos mais parar.

Eu e os meus companheiros de viagem sentimo-nos, por isso, conquistadores de tesouros formados por água, vento e encostas perfeitamente desenhadas para proporcionar o swell perfeito para surfar.

Nessa viagem, levados pela estrada que seguia rumo a norte, procurávamos o nosso norte em uníssono, com os motores – todos eles – em compasso perfeito.

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Pelo caminho, sorria. Só me conseguia lembrar, com carinho, de Manuel Rui Monteiro e do romance Quem me dera ser onda. Teríamos nós direito ao nosso «Carnaval da Vitória»? Estórias de meninice, que voltam sempre, como a brisa do mar.

A Barra do Dande: o encontro do rio com o mar. Um breve desvio para subir a encosta e apreciar a paisagem. Um local estranhamente silencioso, tão perto da azáfama luandense que deixáramos há escassos minutos. Histórias que se entrecruzam com a nossa. A da mulher deixada só com os filhos, que controlava o farol com olhos de lince, e que mantinha a sua horta no terreno outrora minado. A do militar responsável pela desminagem daquele território, e que trazia a esperança no olhar. Motores de desenvolvimento de um país.

Seguimos viagem. Admirar a costa pela esquerda era uma novidade. Mar, rio e encosta verdejante. Ambriz trouxe-nos promessas que nos deram esperança. Sim, há quem tenha surfado ali, conta-se. O nosso motor nunca parou.

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A nossa busca era imparável, por terrenos sem trilho, em que parecíamos ser os primeiros a chegar. Mais do que procurar ondas, acabamos por descobrir caminhos. A dúvida de saber se o carro passaria ou não, se a areia seria suficientemente firme, se aquela ponte colonial seria ainda segura, se o Soba nos concederia o favor de passar… há poucas coisas que se assemelham ao desbravar do próprio caminho.

E o Zaire…finalmente.

A sua capital, M’banza Congo, foi a capital do antigo reino do Congo, e toda essa proximidade com o país vizinho faz com que esta província e os seus habitantes tenham caraterísticas sui generis.

A região, rica em recursos naturais, tem praias ladeadas por savana e floresta densa e húmida, com madeiras de alto valor, como o pau-preto.

Mas o mais entusiasmante no meio da paisagem é a existência de rochas ao longo do caminho, embutidas nos montes, dispostas de forma ornamental, como que em exibição, para serem apreciadas. Uma verdadeira Stonehenge angolana.

Encontrámos, na vila piscatória do N’zeto, exatamente o que procurávamos.

Já não era uma promessa, era a concretização. Era uma das poucas praias surfáveis a norte de Angola, o que a torna muito especial.

Famílias de pescadores puxavam a rede, com esforço, mas sempre com aquele inexplicável sorriso de quem vive com pouco.

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Miúdos faziam skimming e saltos mortais à beira-mar.

Estávamos cansados, transpirados, e só o peixe grelhado acabado de apanhar e uma Cuca fresquinha conseguiu apaziguar os quilómetros percorridos. Partilhávamos o inexplicável sorriso dos pescadores. Já tínhamos sido contagiados.

E aquela Onda…

Soubemos, ali mesmo, que o mar era o motor que criava vida.

 

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*Crónica originalmente publicada no número 52 da Revista Espiral do Tempo, sujeito ao acordo ortográfico em vigor em Portugal.

** Fotografias de Rui Sérgio Afonso e Mauro Motty, durante viagens por Angola com a The Art Affair e a The Takes.

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O Namibe é sem dúvida especial, por albergar o deserto com o mesmo nome.

Com uma paisagem muito peculiar, a magia das dunas transporta-nos a um cenário próprio das mil e uma noites.

Com intensa pesca artesanal, tem os crustáceos mais apreciados do país.

A Welwitschia Mirabilis, única no mundo, envolta por dunas douradas a brilhar ao sol, e as praias mais radicais que se podem encontrar em Angola, estão no Namibe.

Aliás, a famosa onda de 3 kms de comprimento dispensa apresentações…

Praia: Farol da Barra

Tipo de Praia: Aventura

Localização: Perto do Farol da Barra, a cerca de 8 kms da cidade do Namibe

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Como ir: com viatura todo o terreno, completamente equipada com mantimentos reforçados

Nível de dificuldade dos acessos: 4

Onde ficar: Flamingo Lodge ou, para os mais ousados, acampar à luz da lua

Onde comer: Flamingo Lodge ou num piquenique à beira-mar

Conselhos uteis: Convém andar pelo deserto com um guia devidamente equipado e conhecedor da área

O melhor: literalmente deserta, permite paz interior e o acesso a uma das ondas mais radicais do mundo, sem crowd

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O pior: de difícil acesso e com comunicação limitada

Exclusivo: fazer praia com deserto ao fundo é um privilégio apenas possível nesta província

Surf Spot: Sim. Tem as ondas mais potentes de toda a costa angolana

Ligação ao mundo? Isolado do Mundo

Outras praias na zona: Cabo Negro, Praias das Miragens, Praia Azul, Praia Amélia, Praia das Barreiras, Praia dos Flamingos e a Baia das Pipas

Além da praia: a Welwitschia Mirabilis, a Baía dos Tigres, dunas, o Oásis, os exemplares da arquitectura colonial, fortalezas, Águas Termais do Centro Turístico da Mutípa, Pediva, Ndolondolo, Quedas de Água do Monte Negro Foz do Rio Cunene, Parque Nacional do Iona, Furnas do Kapangumbe, Gravuras de Tehipopilo-Caraculo

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Namibe

 

*Fotografias de Bernardo Gramaxo, Mauro Motty, Vasco Célio e António Gamito.

*Texto publicado na Revista Rotas & Sabores, edição n.º 6, de Dezembro 2014 / Janeiro 2015.

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Bengo

O Bengo está localizado no litoral Norte de Angola. Situado mesmo ao lado de Luanda, beneficia, a nível do turismo, da azáfama e cosmopolitismo da capital, podendo-se considerar o turismo uma das fontes de receita da região.

A província tem uma oferta eclética a este nível: reserva animal, reserva florestal, rios, magníficas praias, lagoas, ruínas da época colonial e diversas infra-estruturas de lazer. As suas praias estão preparadas para excelentes banhos de mar, pesca e desportos marítimos.

Praia: Ambriz

Tipo de Praia: Ideal para relaxar a dois ou divertir-se em família.

Localização: A Norte da província do Bengo, o Ambriz está situado entre o Município do Dande (Bengo), a Sul, e o Município do N’zeto (Zaire), a Norte.
Como ir: De Luanda, o melhor acesso é por estrada, que se encontra em boas condições. Por mar, via porto de Ambriz, Barra do Dande ou Porto Kipiri. O Bengo tem ainda um pequeno aeroporto para aviões de pequeno porte.

Dificuldade dos acessos (de 1 a 5): Por terra, 2. Por mar, 4

Bengo
Onde ficar: Hotel Ambriz ou, a uma distância considerável, mas com mais conforto, o Complexo Turístico Paradíseos e o Pasárgada.

Onde comer: No único restaurante existente no Ambriz.

Conselhos úteis: Devido aos problemas de rede na região, pondere levar um telefone via satélite para facilitar as comunicações.

O melhor: A paisagem.

O pior: A rede de telemóvel.

Exclusivo: O pôr-do-sol é imperdível…tenha a máquina fotográfica
à mão.

Surf Spot: Em determinadas alturas do ano, sim.

Ligação ao mundo (rede de telemóvel): Não.

Outras praias na zona: Barra do Dande, Catumbo, Pambala e Santiago.

 

*Fotografias de Mauro Motty.

*Texto publicado na Revista Rotas & Sabores, edição n.º 6, de Dezembro 2014 / Janeiro 2015.

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Zaire

Zaire

Situada a noroeste de Angola, a Província do Zaire está longe de ser uma das mais exploradas para o Turismo, embora consigamos prever uma mudança de cenário nos próximos anos, porque a sua beleza natural não ficará incognita por muito mais tempo.

Está na linha de fronteira, a Norte, com a República Democrática do Congo, desde a foz do rio Zaire, no oceano Atlântico, tem o Bengo a Sul, e o Uíge a Este. Motivos mais do que suficientes para a ir visitar.

A sua capital, M’banza Congo, fora a capital do antigo reino do Congo, e toda essa proximidade com o País vizinho faz com que esta província e os seus habitantes tenham características sui generis.

A região, rica em recursos naturais, tem praias ladeadas por savana e floresta densa e húmida, com madeiras de alto valor, como o pau-preto.

Mas o mais entusiasmante no meio da paisagem é a existência de rochas ao longo do caminho, embutidas nos montes, dispostas de forma ornamental, como que em exibição, para serem apreciadas. Uma verdadeira Stonehenge angolana.

Encontrámos na vila piscatória do N’zeto exactamente o que procurávamos.

 

Praia: N’zeto, Zaire

Tipo de Praia: Familiar, porque segura e pela existência de imensas crianças locais, que esperam que os pais regressem da faina. Tanto os Pescadores como as suas famílias são hospitaleiros e abertos ao contacto.

Sem dúvida também uma praia de aventura, pela possibilidade de prática de desportos náuticos: surf, skimming, pesca, entre outros.

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Localização:

Como ir: a Vila do N’zeto dista cerca de 270 kms de Luanda. Os acessos de Luanda a N’zeto são excelentes, sempre em estrada asfaltada, podendo a viagem ser feita por um automóvel sem características especiais.

Nível de dificuldade dos acessos: 2

Onde ficar: Excelente oportunidade para acampar junto a Natureza.

Onde comer: Os restaurantes locais à volta servem peixe recém apanhado, trazido pelos Pescadores, por isso não deixe de o provar.

Conselhos uteis: Infraestruturas muito escassas, convém levar mantimentos para a praia.

O melhor: os miúdos locais a fazer skimming e piruetas na praia

O pior: a falta de infraestruturas

Exclusivo: é uma das poucas praias surfáveis a Norte de Angola, o que a torna muito especial.

Surf Spot: Sim

Ligação ao mundo? (Rede de telemóvel): Fraca

Outras praias na zona: Kifuca, Ambriz

Além da praia: Museu Kulumbimbi (antiga casa do Rei), Ponta do Padrão, Porto Rico, Porto do Pinda e claro….as rochas.

 

*Fotografias de Mauro Motty

*Texto publicado na edição nº 6 da Revista Rotas & Sabores, de Dezembro 2014 / Janeiro 2015assinatura

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“A ideia de fazer um documentário sobre surf em Angola foi partilhada enquanto bebíamos um copo de gin.

Os olhos esbugalharam-se e o sorriso abriu-se. Que óptima ideia! Mas o melhor – digo eu – veio logo de seguida quando a Alexandra – advogada de profissão e uma eterna apaixonada por Angola e impulsionadora dos encantos do país – sugeriu que a Rotas & Sabores se juntasse a esse sonho de revelar ao mundo os melhores spots para surfar em Angola, nas imensas praias que a costa angolana tem.

Era tudo o que queríamos ouvir. Aceitamos a sugestão na hora.

Mais tarde, sentados a uma mesa, e desta vez a segurar um copo de vinho, esmiuçámos planos, trocámos argumentos, esgrimimos opiniões. Só assim surgem as grandes ideias.

O trabalho para a revista não poderia falar apenas sobre surf, tinha de ser mais abrangente. A Alexandra não hesitou e aceitou, agora ela, a nossa ideia: fazermos um trabalho, um trabalho especial, sobre as praias de Angola.

O surf seria apenas uma excelente desculpa – para a R&S – para viajarmos pela linha costeira e descobrirmos algumas das areias mais paradisíacas do país.

A Alexandra, juntamente com a sua equipa da produtora The Art Affair e da sua parceira The Takes, fez-se à estrada durante mais de um mês – acompanhada pelos surfistas Chloé Calmon, Alex Botelho e Emiliano Cataldi, que serão protagonistas do seu documentário com Boa Onda, com estreia prevista para 2015 – e dá-nos, a partir da página 18 desta edição, todas as dicas de como usufruir de cada um dos paraísos que encontrou, muitos com ondas, outros só com beleza natural. Feita esta primeira viagem, todos os que se envolveram nesta reportagem prometeram: voltaremos à estrada para descobrir outras praias, outras areias, mas sempre o mesmo mar, o mar de Angola.”

Ana Filipa Amaro, in Rotas & Sabores

 

Embarque connosco nesta aventura!

Texto publicado na edição nº 6 da Revista Rotas & Sabores, de Dezembro 2014 / Janeiro 2015

 

Angola, Uma viagem, Três surfistas…

Um país por explorar, uma equipa persistente, ondas inacreditáveis e um Povo que acolhe, acarinha e integra.
O mote para o primeiro filme documental sobre Surf em Angola.

De uma conversa entre amigos, surgiu uma ideia.
Esta ideia rapidamente se tornou uma grande paixão.
De amor platónico a projecto estruturado, foi um passo.

É com muito orgulho que a The Art Affair e a The Takes foram à “descoberta” da essência deste país…e do Povo que lhe dá alma.

Acompanhados por todos aqueles que acreditaram na sua visão, mostrando serem eles os verdadeiros visionários.

Junte-se a esta aventura!

Três surfistas - médio

 

Angola

Uma viagem

Três Surfistas

Alex Botelho Namibe

Mais do que um projecto, as produtoras The Art Affair e The Takes  iniciaram em Agosto de 2014 uma aventura.

Percorrendo Angola de Norte ao Sul, fomos à procura de ondas surfáveis e de praias nunca antes exploradas.

Encontrámos algo ainda maior…verdadeira poesia em movimento, terra vermelha a emanar Africanidade e a Alma de um Povo que recebe, toca e encanta.

Convidámo-lo a juntar-se a esta aventura, pelas páginas das produtoras, e testemunhar a elaboração daquele que será o primeiro filme Documental sobre Surf em Angola.

Surf in Angola….Are you ready?

assinatura

 

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